“Infâncias estão sendo atravessadas pelo trabalho”, diz especialista sobre trabalho infantil no Piauí
Mais de 54 mil crianças e adolescentes estão nessa situação no estado.
Ao menos 57 crianças e adolescentes foram afastados de situações de trabalho infantil no Piauí ao longo de 2025. O dado é do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e coloca o estado entre os que registraram menor número de afastamentos no Nordeste.
Apesar do número, o cenário ainda chama atenção. Isso porque os dados representam apenas os casos identificados e acompanhados, enquanto a realidade pode ser maior e mais difícil de mensurar.
Em cidades como Teresina, a presença de crianças trabalhando em ruas e semáforos faz parte do cotidiano e reforça a dimensão do problema.
Para a especialista em políticas públicas para a primeira infância, Thaís Ferreira, o trabalho infantil precisa ser analisado dentro de um contexto mais amplo.
“Quando olhamos para as infâncias periféricas, ribeirinhas ou das regiões mais vulneráveis do Brasil, percebemos que essa infância é atravessada de forma violenta pelo trabalho. Não se trata apenas de trabalho infantil, mas de exploração da mão de obra das crianças. Eu vi meninos, todos negros, vendendo bala no sinal e entrando em estabelecimentos. Essa exploração do trabalho infantil é uma realidade que atravessa todo o país e precisa ser enfrentada”, disse.”, afirmou.
Segundo a especialista, o problema está ligado a uma sequência de vulnerabilidades que começam ainda nos primeiros anos de vida.
“A vulnerabilidade começa ainda no ventre, com dificuldade de acesso à saúde, e continua na infância, com falta de creche, educação, alimentação, esporte, lazer e cultura. Quando essas crianças chegam à idade em que parecem prontas para o trabalho, elas acabam sendo inseridas como força de trabalho”, explicou.
Para ela, o resultado é a interrupção de uma fase importante do desenvolvimento. “Meninos e meninas que deveriam estar estudando e se desenvolvendo têm suas infâncias interrompidas pela necessidade de contribuir para a renda das famílias. Isso não é uma escolha dessas crianças, é consequência das vulnerabilidades que atravessam suas famílias”, afirmou.
Dados nacionais também indicam um perfil recorrente: a maior parte das crianças em situação de trabalho infantil são meninos, negros e moradores de áreas periféricas.
A especialista defende que a redução dos casos depende de ações integradas. “Saúde, educação, assistência social, cultura e lazer precisam atuar juntos. Se a cidade for pensada para o desenvolvimento das infâncias, essa interrupção diminui. A criança é o presente. E só chega ao futuro se esse presente for garantido”, completou.