Mulheres transformam talento em renda e criam oportunidades na periferia de Teresina

Projeto da Vila da Glória já ajudou moradoras a gerar renda, conquistar autonomia e empreender.

Algumas transformações começam de forma silenciosa. Na Vila da Glória, zona Sul de Teresina, havia uma mulher tentando reconstruir a própria vida. Antes da renda própria, da máquina de costura e dos planos para o futuro, dona Gizele Nunes buscava uma oportunidade para recomeçar. Mãe solo, desempregada e vítima de violência doméstica, ela carregava sozinha o desafio de sustentar os filhos e seguir em frente.

Há alguns anos, ela não imaginava que uma máquina de costura ajudaria a costurar também uma nova história. Durante um relacionamento abusivo, viu a vida profissional desmoronar junto com a vida pessoal. Na época, trabalhava vendendo roupas, mas foi impedida de continuar exercendo a atividade pelo então companheiro.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

"Perdi muitos clientes por causa desse relacionamento. Quando consegui me libertar, precisei vender as roupas da loja por um preço muito baixo para sobreviver com minhas filhas", lembra.

O recomeço não foi simples. Sem emprego, sem renda fixa e responsável sozinha pelos cuidados dos filhos, Gizele precisou encontrar uma forma de seguir em frente. Foi nesse momento que decidiu olhar para um sonho antigo. "Lembrei do curso de costura da comunidade e pensei que aquela poderia ser uma oportunidade de mudar de vida", conta.

Foi assim que ela encontrou uma oportunidade dentro da própria comunidade. Desde as primeiras aulas, chamou atenção pela dedicação. Aos poucos, a atividade deixou de ser apenas um aprendizado e passou a se transformar em profissão.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

As primeiras conquistas chegaram antes mesmo da própria máquina de costura. "Com o primeiro dinheiro, consegui pagar uma dívida de cartão. Parecia pouco, mas para mim significava muito", recorda.

Com o tempo, a renda se transformou em autonomia. Gizele organizou as finanças, adquiriu as primeiras máquinas e montou o próprio espaço de trabalho dentro de casa. Hoje, a costura é a principal fonte de renda da família.

"A costura me ajudou a reconstruir a minha vida. Hoje consigo sustentar minha família", afirma.

O curso que ajudou ela a reencontrar autonomia nasceu dentro da própria comunidade onde ela mora. E, assim como a história dela, também começou de forma simples. Antes de transformar a vida de mulheres como Gizele, a costura também transformou a vida de quem decidiu ensinar.

Oportunidade que se multiplica

Em todo lugar existem espaços vazios. Problemas que ainda não foram resolvidos, públicos não atendidos ou necessidades que ainda esperam uma solução. E é justamente nesses espaços que surgem ideias capazes de transformar realidades, reaproveitar o que seria descartado e movimentar pequenos negócios dentro das comunidades.

Na Vila da Glória, um pequeno retalho de linho ajudou a dar origem a um projeto que vem transformando a vida de mulheres da comunidade há quase uma década. Foi através daquele pedaço de tecido que Marilena Pereira começou a enxergar novas possibilidades para a costura.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

"Quando aquele retalho chegou às minhas mãos, eu percebi que dali poderiam surgir muitas coisas. Bordados, peças artesanais, roupas customizadas. Como costureira, eu sabia que aquele material podia ganhar novos significados. Foi quando pensei que esse conhecimento também poderia ser compartilhado com outras mulheres", lembra.

A ideia ganhou força porque Marilena já conhecia a realidade de muitas moradoras da comunidade que buscavam uma oportunidade para aprender uma profissão e gerar renda. O que começou como orientações e ensinamentos dentro do próprio ateliê logo se transformou em algo maior. "Depois pensei: eu quero transformar isso numa escola para mulheres. Foi assim que nasceu o Costurando Sonhos", conta.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Criado em 2017, o projeto Costurando Sonhos passou a oferecer aulas de costura, bordado e artesanato para mulheres da Vila da Glória. Muitas nunca haviam sentado diante de uma máquina de costura. Outras buscavam uma nova oportunidade de renda ou uma forma de reconstruir a própria vida.

Foi por meio do projeto que mulheres como Gizele encontraram uma profissão, autonomia financeira e a oportunidade de recomeçar. Mas as aulas vão além da técnica. Dentro do projeto, as participantes aprendem a desenvolver a criatividade, reconhecer o próprio potencial e transformar conhecimento em oportunidade.

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Ao longo dos anos, cerca de 70 mulheres já passaram pelo projeto. Algumas abriram pequenos negócios, outras começaram a produzir em casa e muitas encontraram uma nova fonte de renda para ajudar no sustento da família.

Mais do que uma escola de costura, o espaço se tornou uma rede de apoio e transformação dentro da comunidade.

"Eu já vi mulheres chegarem sem perspectiva e depois passarem a produzir, vender e ajudar no sustento da própria família. O que mais me orgulha é ver mulheres descobrindo que são capazes", destaca Marilena.

Quando a costureira descobriu que também era artesã

Enquanto ensinava mulheres a costurar, Marilena também vivia um processo de descoberta. As peças produzidas em linho, os bordados inspirados na cultura piauiense e as histórias contadas através do tecido já chamavam a atenção de quem conhecia seu trabalho. Mas, por muito tempo, ela acreditou estar apenas fazendo roupas.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Foi durante essa caminhada que surgiu a aproximação com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Ao apresentar suas peças, ela recebeu uma surpresa.

"Eu via muitas reportagens do Sebrae na televisão. Via pessoas crescendo, desenvolvendo seus negócios e pensei: eu também vou mostrar o meu trabalho. Foi lá que me disseram pela primeira vez que eu era artesã. Até aquele momento eu não me enxergava dessa forma", conta.

A descoberta representou uma mudança de perspectiva. Durante anos, ela havia transformado tecidos em peças que carregavam cultura, identidade e memória. Mas ainda não enxergava aquele trabalho dentro da economia criativa.

"Foi uma virada de chave. Eu percebi que não estava apenas costurando roupas. Eu estava contando histórias e quebrando barreiras", afirma.

Mais do que reconhecer o trabalho desenvolvido por Marilena, o Sebrae ajudou a estruturar o negócio. Com orientações e consultorias, ela formalizou a atividade, registrou a marca, abriu o Microempreendedor Individual (MEI) e tirou a carteira de artesã. "Passei a entender melhor meu público, a valorizar meu trabalho e a enxergar meu negócio de uma forma mais estratégica", explica.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

O aprendizado também ajudou ela a perceber algo que já acontecia dentro da Vila da Glória. Aquilo que começou com um retalho de tecido e algumas aulas de costura era, na prática, um exemplo de economia criativa: transformar conhecimento, cultura e identidade em geração de renda. "O que antes eu via apenas como costura, passei a entender como uma forma de preservar e valorizar a nossa cultura", afirma.

Uma transformação que se repete

As histórias de Gizele e Marilena nasceram na Vila da Glória, mas estão longe de ser casos isolados. Em diferentes comunidades do Brasil, milhares de mulheres têm transformado habilidades aprendidas dentro de casa em fonte de renda, autonomia e oportunidade para suas famílias.

Dados do Data Favela mostram que 53% dos lares empreendedores nas comunidades brasileiras são chefiados por mulheres. Mais do que administrar um negócio, elas carregam a responsabilidade de sustentar suas casas e construir novas perspectivas para as próximas gerações.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

No Piauí, esse movimento também ganha força. Segundo dados do DataSebrae e da PNAD Contínua do IBGE de 2025, mais de 144 mil mulheres lideram negócios próprios no estado, representando 33,9% dos empreendedores piauienses. Além disso, 10,3% das mulheres em idade ativa possuem um negócio próprio.

Em Teresina, os números ajudam a dimensionar essa transformação. Dados da Junta Comercial do Estado do Piauí (Jucepi) mostram que 2.657 empresas ativas são lideradas por mulheres. A maioria desses negócios é formada por microempreendedoras individuais, evidenciando a força dos pequenos negócios na capital.

Foto: Ilustração/ Correio Piauiense

 

Por trás desses números existe um desafio comum: transformar talento em negócio. Muitas mulheres já dominam técnicas de costura, artesanato, culinária, bordado e outras atividades ligadas à economia criativa. O que muitas vezes falta é orientação para estruturar esse conhecimento, acessar mercados e transformar habilidade em fonte de renda.

Mais do que oferecer capacitações e consultorias, o Sebrae atua justamente para ajudar empreendedoras a reconhecer o valor econômico de conhecimentos que muitas vezes já fazem parte do seu cotidiano.

Por meio de orientação para formalização, fortalecimento da gestão, acesso a mercados e desenvolvimento de negócios, a instituição contribui para que criatividade, cultura e identidade local se transformem em oportunidades reais de geração de renda.

Para a analista do Sebrae, Valclades Moura, muitas mulheres chegam à instituição sem perceber que já possuem um empreendimento em potencial.

"Muitas vezes essas mulheres já sabem produzir, criar, vender e atender clientes. O que falta é enxergar aquilo como negócio. O Sebrae entra justamente para ajudar nessa transformação. Nós oferecemos capacitação, orientação, consultorias e ferramentas para que elas consigam estruturar seus empreendimentos, ampliar mercados e crescer de forma sustentável", explica.

Foto: Divulgação/ Sebrae

Segundo ela, o impacto desse trabalho vai muito além da geração de renda.

"Quando uma mulher fortalece seu negócio, ela fortalece também sua autonomia, melhora a renda da família e inspira outras mulheres a acreditarem no próprio potencial. O empreendedorismo feminino tem um efeito multiplicador muito forte. Ele movimenta a economia local, gera oportunidades e promove transformação social dentro das comunidades", afirma.

Foi esse processo que ajudou Marilena a enxergar seu trabalho sob uma nova perspectiva. Costureira há anos, ela conta que foi através das capacitações e orientações recebidas que passou a compreender o valor do seu artesanato dentro da economia criativa. "Eu cheguei ao Sebrae como costureira. Foi lá que comecei a entender que também era artesã. Passei a enxergar valor no que eu fazia e percebi que o meu trabalho podia chegar ainda mais longe", lembra.

A trajetória de Marilena ajuda a ilustrar um dos principais objetivos do Sebrae: transformar conhecimento, criatividade e talento em negócios capazes de gerar autonomia financeira, fortalecer comunidades e criar novas oportunidades para outras mulheres.

Na prática, histórias como a dela mostram que, quando recebem apoio, orientação e acesso ao conhecimento, pequenos talentos podem se transformar em grandes oportunidades.

O valor do que sempre esteve ali

Durante muito tempo, atividades como costura, bordado, crochê e artesanato foram vistas apenas como complemento da renda familiar ou uma extensão dos afazeres domésticos.

Hoje, especialistas observam uma transformação importante: o reconhecimento econômico de conhecimentos que, por gerações, foram desenvolvidos e transmitidos por mulheres dentro das próprias comunidades.

Esse movimento tem rosto, cor e território. Dados do Instituto Data Favela mostram que 55% das mulheres empreendedoras das favelas brasileiras são negras. A pesquisa também revela que 68% delas dedicam mais de três horas por dia aos cuidados da casa e dos filhos, acumulando jornadas que vão muito além do próprio negócio.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Mesmo diante desses desafios, milhares de mulheres têm encontrado no empreendedorismo uma forma de gerar renda, melhorar suas condições de vida e ampliar oportunidades para suas famílias.

Para a professora Kellen Carvalho de Sousa Brito, pesquisadora da área de Economia Feminista da Universidade Federal do Piauí (UFPI), essa realidade está diretamente ligada ao papel historicamente atribuído às mulheres dentro da sociedade.

"Durante muito tempo, as mulheres foram associadas principalmente ao trabalho doméstico e ao cuidado com a família. Muitas vezes, sobra pouco tempo para desenvolver atividades voltadas ao mercado de trabalho. Por isso, o empreendedorismo acaba surgindo como uma alternativa para complementar a renda sem abandonar responsabilidades que continuam recaindo sobre elas", explica.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Segundo a pesquisadora, muitas dessas iniciativas nascem justamente a partir de conhecimentos aprendidos dentro das próprias comunidades.

"São saberes construídos ao longo da vida, ligados à cultura local, às tradições e às experiências compartilhadas entre gerações. O que acontece é que essas mulheres conseguem transformar esse conhecimento em oportunidade de renda e melhoria das condições de vida", afirma.

É justamente aí que a economia criativa ganha força. Um bordado, uma peça artesanal ou uma roupa customizada valem mais do que a matéria-prima utilizada na produção. Elas carregam histórias, memórias, conhecimentos e referências culturais que não podem ser reproduzidos em série da mesma forma.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

O valor econômico está na criatividade e na capacidade de transformar identidade, cultura e conhecimento em produtos únicos, capazes de gerar renda, fortalecer comunidades e preservar tradições locais.

A sobrecarga também aparece em levantamentos nacionais. Estudos do Sebrae mostram que mulheres empreendedoras dedicam quase o dobro do tempo aos cuidados com a família e aos afazeres domésticos quando comparadas aos homens. Mesmo assim, seguem ampliando sua presença nos pequenos negócios e criando alternativas para fortalecer a renda familiar.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Mas a transformação vai além da questão financeira. Para a especialista, um dos aspectos mais marcantes dos empreendimentos liderados por mulheres é a capacidade de construir redes de apoio. Em muitas comunidades, uma mulher ensina a outra, compartilha experiências, divide aprendizados e fortalece caminhos coletivos.

“A autonomia financeira permite que muitas mulheres saiam de situações de violência, vulnerabilidade e dependência. Ela fortalece a autoestima, a autoconfiança e a capacidade de tomar decisões sobre a própria vida. Mais do que gerar renda, o empreendedorismo feminino tem ajudado mulheres a recuperar a confiança, ampliar horizontes e construir novos projetos de vida”, finaliza.

O legado de uma oportunidade

Nem todas as transformações podem ser medidas em números. Algumas aparecem na máquina de costura que ganhou espaço dentro de casa. Outras no primeiro dinheiro conquistado com o próprio trabalho. Há ainda aquelas que surgem de forma mais silenciosa: na autoestima recuperada, na confiança reconstruída ou na coragem de voltar a sonhar.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Anos depois das primeiras aulas, os resultados do Costurando Sonhos podem ser encontrados em diferentes casas da Vila da Glória. São mulheres que passaram a gerar renda, ajudaram no sustento da família, abriram pequenos negócios e descobriram novas possibilidades para o futuro.

Cada uma carrega uma trajetória diferente. Mas todas têm algo em comum: encontraram na costura muito mais do que uma profissão.

Histórias que seguem sendo costuradas

Os resultados do Costurando Sonhos não aparecem apenas nas peças produzidas ou nos pequenos negócios que surgiram dentro da Vila da Glória. Eles podem ser vistos nas mulheres que voltaram a acreditar em si mesmas.

Hoje, depois de reconstruir a própria vida através da costura, Gizele também ajuda outras mulheres que estão começando a trilhar o mesmo caminho. O conhecimento que recebeu agora é compartilhado.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

"Quando eu sei alguma coisa, ensino. E quando alguém sabe algo que eu ainda não sei, eu também aprendo. Existe uma troca de conhecimento. Outras mulheres também passaram a comprar suas máquinas e trabalhar em casa. Eu me sinto realizada e feliz por essa transformação social", conta.

Uma corrente que continua crescendo dentro da comunidade. Para Gizele, boa parte dessa transformação começou quando alguém enxergou nela um potencial que nem ela mesma conseguia ver.

"Eu agradeço muito à Lena. Eu cheguei procurando apenas um curso de costura, mas ela acreditou em mim. Foi muito importante para que eu chegasse onde estou hoje. Aprendi que minha felicidade e meu sucesso não dependem de outra pessoa. Hoje estou feliz. A costura me ajudou a reconstruir minha vida. Ela me deu uma profissão, renda e autonomia", diz.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Para Marilena, o maior resultado não está nas roupas confeccionadas nem nos negócios que surgiram ao longo do caminho. "Quando vejo essas mulheres gerando renda, acreditando nelas mesmas e ajudando outras pessoas, tenho a certeza de que valeu a pena. O meu sonho nunca foi apenas ensinar costura. Foi ajudar mulheres a descobrirem que são capazes", afirma.

Na Vila da Glória, o som das máquinas de costura continua ecoando entre linhas, tecidos e bordados. Mas o que está sendo tecido ali vai muito além da roupa. São futuros. São oportunidades. São mulheres que descobriram que o próprio talento também tem valor. E que, às vezes, a transformação de uma comunidade pode começar de forma simples. Com um pedaço de tecido. Com alguém disposto a ensinar e com a coragem de acreditar que uma nova história ainda pode ser costurada.

Reportagem: Luis Fernando Amaranes | Produção e edição de texto: Terciane Maria | Fotos: Narcílio Costa 

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