Infâncias interrompidas: como falhas na primeira infância levam ao trabalho infantil
A falta de direitos na infância antecipa o trabalho e interrompe trajetórias.
O trabalho infantil que aparece na adolescência, muitas vezes, inicia muito antes, em infâncias marcadas pela ausência de direitos básicos. É nos primeiros anos de vida que muita coisa se define.
A primeira infância, que vai do nascimento aos seis anos, é considerada a fase mais decisiva do desenvolvimento humano. É quando o cérebro cresce com mais intensidade, formando conexões que vão sustentar toda a vida, cerca de 90% desse desenvolvimento acontece até os cinco anos, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
Quando esse cuidado falha, as consequências aparecem depois. A história de Janaína começa assim. Nascida no município de Afonso Cunha, no interior do Maranhão, em uma família simples, filha de pais analfabetos e com cinco irmãos, ela cresceu sem acesso à educação de qualidade, acompanhamento de saúde e oportunidades de lazer, direitos que deveriam fazer parte de qualquer primeira infância.
Aos 12 anos, Janaína saiu da cidade para visitar a madrinha, que morava em Teresina, capital do Piauí. A viagem parecia simples: uma visita rápida, dessas que têm começo, meio e fim. Mas, para ela, não teve volta.
A infância ficou para trás sem despedida. No lugar dela, vieram dias iguais, marcados por tarefas repetidas e pela vigilância constante. Dentro da casa, no bairro Ilhotas, zona Sul de Teresina, uma área nobre da cidade, o tempo deixou de ser contado por datas e passou a ser medido por obrigações que começavam cedo e ocupavam todo o dia.
Dentro da casa, o ambiente era pesado. Lavava roupas, limpava os quartos, fazia comida e cuidava das crianças da casa. “Ela me batia porque dizia que eu não fazia as coisas direito. Dizia que eu era preguiçosa, me xingava e eu nunca respondia. Eu só chorava sozinha”, conta.
Sem escola, sem cuidado, sem infância
Sem acesso à escola, não aprendeu a ler nem a escrever. Cresceu sem acompanhamento médico, sem convivência com outras crianças e sem liberdade para fazer escolhas simples do dia a dia. “Meu sonho é escrever meu próprio nome, mas eu tenho medo de errar. Já tentei algumas vezes, mas não consigo”, disse.
Houve momentos em que a dor ultrapassou o limite. Janaína conta que enfrentou crises intensas de cólica renal, mas nunca foi levada ao hospital. “Ela me dava dipirona e dizia que ia passar. Mas no médico eu nunca fui”, relata.
Do lado de fora, a vida seguia. Crianças brincavam, corriam, riam, ocupavam espaços que para Janaína eram proibidos.
“Eu via as crianças brincando e queria brincar, passear no parque, mas eu não podia. Era uma dor profunda que eu sentia e não entendia direito. No Dia das Crianças, eu nem sabia por que comemorava. Eu nunca tive”, contou.
Sair de casa não era permitido. Quando acontecia, era apenas para cumprir tarefas e voltar imediatamente, sempre sob vigilância. Ela tentou fugir algumas vezes, mas o medo sempre falou mais alto.
Hoje, aos 30 anos, Janaína tenta organizar o que viveu e tudo aquilo que nunca pôde viver. Não sabia a própria data de aniversário, nunca teve autonomia e cresceu sem liberdade.
O medo que mantinha tudo em silêncio
Em uma dessas tentativas, ouviu a ameaça que mais a marcou. “O pior dia foi quando ela disse que ia arrancar meu coração”. A frase veio acompanhada de um casco de garrafa quebrado, apontado na direção do peito. Naquele momento, Janaína acreditou que não sairia dali com vida.
Aos poucos, veio também o isolamento. Janaína foi afastada da própria família e de qualquer possibilidade de apoio.
“Ela dizia que eu não podia mais correr atrás da minha família. Que minha família era ela. Falava que ninguém queria saber de mim”, disse.
A família passou mais de dez anos sem qualquer contato com a menina. Quando tentava buscar notícias, era ameaçada pela própria madrinha.
O encontro que mudou tudo
Depois de 15 anos, Janaína finalmente saiu do lugar onde a infância dela havia sido interrompida. Em 2023, aos 27 anos, a mudança começou fora daquela casa. Em um dos raros momentos em que saiu para cumprir tarefas, ela conheceu Osmar Rodrigues.
A aproximação foi aos poucos. No início, ela não contou tudo. Mas, com o tempo, revelou a realidade em que vivia. Ele percebeu que havia algo errado. E decidiu agir. Procurou a família de Janaína no Maranhão e, junto com eles, levou o caso à polícia.
Um problema que ainda persiste
A história de Janaína é extrema, mas não é isolada. Ainda hoje, meninas e meninos atravessam infâncias marcadas por situações semelhantes em diferentes regiões do país.
Em 2024, o Brasil registrou mais de 1,65 milhão de crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, em situação de trabalho infantil, a maior parte. O número representa 4,3% da população nessa faixa etária, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). O Nordeste concentra o maior número absoluto de casos: 547 mil crianças e adolescentes. A região também registrou aumento recente, evidenciando a necessidade de atenção local.
São 34 mil casos a mais em relação a 2023, um aumento de 2,1%. Ainda assim, no recorte de longo prazo, houve redução de 21,4% entre 2016 e 2024. Os dados mostram também como esse trabalho se distribui no dia a dia dessas crianças. Mais da metade, 54,1%, está envolvida em afazeres domésticos e no cuidado de outras pessoas. Dentro desse universo, cerca de 1,195 milhão exercem atividades econômicas, enquanto outras 455 mil trabalham apenas para o próprio consumo.
Trabalho infantil no Piauí
No Piauí, a realidade também preocupa. Dados da PNAD Contínua 2023, analisados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, apontam que o estado registrou 54.366 crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, em situação de trabalho infantil. O número coloca o estado na 11ª posição no ranking nacional em quantidade absoluta de casos e representa 3,4% do total do país, que soma cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes nessa condição.
Quando o recorte é proporcional, o cenário se agrava. Com uma população de 635.121 pessoas nessa faixa etária, o estado tem taxa de 8,6% de trabalho infantil, um dos maiores índices do país, atrás apenas do Pará e do Tocantins.
No Piauí, o desafio é romper o silêncio
No estado, o cenário segue a mesma lógica: os casos existem, mas nem sempre chegam até os órgãos de controle. Segundo o procurador do Trabalho e coordenador regional de combate ao trabalho escravo do Ministério Público do Trabalho (MPT), Edno Moura, a subnotificação ainda é um dos principais obstáculos no enfrentamento ao trabalho infantil.
“Nós não temos tantas denúncias porque a sociedade ainda é bastante leniente com o trabalho infantil. Muitas pessoas ainda enxergam isso como algo normal ou até como solução. E as pessoas só denunciam aquilo que entendem como irregular”, explicou.
Quando os casos chegam, a atuação acontece, mas nem sempre na esfera criminal. Isso porque, segundo o procurador, o trabalho infantil, por si só, não é tipificado como crime em todas as situações, embora seja proibido por lei e configure uma violação de direitos. “A atuação ocorre principalmente nas esferas trabalhista e cível, com pagamento de direitos, indenizações por danos morais e responsabilização administrativa. Quando há falha do poder público, também acionamos o Estado para garantir políticas públicas efetivas”, ressalta.
Já nas situações mais graves, como exploração sexual, tráfico de drogas ou trabalho análogo à escravidão, a responsabilização passa a ser também criminal. Mas, segundo o procurador, o foco vai além da punição.
“O Ministério Público tenta induzir a criação de políticas públicas. O objetivo é formar uma nova geração, porque a atual ainda é muito marcada por essa cultura do trabalho infantil. Esse tipo de exploração destrói trajetórias e faz a sociedade perder capital humano”, disse.
Perfil das vítimas
O trabalho infantil no Brasil não acontece por acaso.O problema está diretamente ligado à desigualdade e à falta de acesso a direitos básicos desde os primeiros anos de vida. Ele tem perfil, cor e endereço.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, na maioria das vezes, as vítimas são meninos, negros e moradores de áreas periféricas. Entre as crianças de 5 a 13 anos, elas representam cerca de 20% dos casos. Já os adolescentes de 16 e 17 anos concentram 66% dos registros.
Os índices mostram um recorte claro do trabalho infantil no Brasil e que se repete com força no Piauí, onde a maior parte das vítimas são crianças negras. Mais do que um perfil estatístico, esse cenário revela como raça e condição social influenciam diretamente quem está mais exposto à exploração.
“Existe uma relação direta entre trabalho infantil e população negra. Isso reforça a invisibilidade dessas crianças. No Piauí, há um número muito alto de crianças em situação de violência doméstica e também de trabalho infantil invisível”, afirma a pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (Nupec), da Universidade Federal do Piauí, D’Alva Macedo.
Para a pesquisadora, o trabalho infantil não começa no momento em que a criança passa a trabalhar. Ele começa muito antes, nas condições em que essa infância é construída. Segundo ela, a desigualdade social ainda define quem tem acesso a direitos básicos e quem cresce à margem deles.
“Famílias empobrecidas e periféricas muitas vezes não têm acesso a bens e serviços públicos. E, mesmo quando políticas sociais são aplicadas, há retrocessos. Durante a pandemia, muitas dessas ações foram ainda mais fragilizadas”, explica.
Nesse contexto, o trabalho precoce se conecta a outras formas de violência e é incorporado ao cotidiano como uma alternativa possível diante da falta de oportunidades. A ausência de perspectivas e as respostas imediatas do trabalho informal acabam pesando mais do que a permanência na escola.
“Muitos não têm expectativa de futuro. A escola nem sempre oferece respostas imediatas, enquanto o trabalho precário aparece como uma alternativa rápida. Mesmo quando continuam estudando, muitos acabam reproduzindo o que já existe dentro de casa, e o futuro profissional se torna incerto”, conclui.
Esse contexto cria infâncias diferentes dentro de uma mesma cidade. Enquanto algumas crianças crescem com acesso à escola, ao lazer e à proteção, outras são empurradas cedo para o trabalho, muitas vezes como estratégia de sobrevivência.
A especialista explica que essa lógica aprofunda desigualdades e limita o futuro. A ideia de que o trabalho é necessário para garantir renda acaba colocando essas crianças em trajetórias marcadas pela vulnerabilidade e, em muitos casos, pela violência.
“Esses fatores mostram como a sociedade concentra riqueza e marginaliza as classes populares. O trabalho infantil continua existindo porque essa desigualdade ainda não foi superada”, conclui.
Impactos na saúde: quando a infância é interrompida
O trabalho infantil não muda só a rotina de uma criança, ele interfere diretamente no seu desenvolvimento. Na primeira infância, fase em que o cérebro ainda está em formação, ocorrem processos fundamentais para a vida. É nesse período que a criança aprende a falar, a se expressar, a construir vínculos de confiança e a se relacionar com o mundo ao seu redor.
Para que esse desenvolvimento aconteça de forma saudável, são necessários estímulos simples, mas essenciais, como brincar, conviver com a família e outras crianças, frequentar a escola e receber cuidado e proteção. Quando esse ambiente é substituído pelo trabalho precoce, o processo é interrompido.
Para o geneticista e professor de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mariano Zalis, o impacto começa exatamente aí. “Toda a vivência que tira a criança da infância interfere diretamente no seu desenvolvimento. Quando ela deixa de brincar, de receber estímulos adequados e de viver relações afetivas saudáveis, isso representa uma ruptura importante na forma como o cérebro se organiza”, explica.
Sem os estímulos certos, o aprendizado pode ficar comprometido, a concentração diminui e a forma de lidar com emoções muda. Na prática, a criança que deveria estar aprendendo passa a lidar com responsabilidades de adulto. O tempo do brincar dá lugar à obrigação. O cuidado vira cobrança e o cérebro sente.
“Quando a criança precisa assumir responsabilidades de provedor, ela deixa de receber amor, afeto e estímulos fundamentais. Isso gera transformações cerebrais importantes, afetando a plasticidade cerebral, a cognição e a capacidade de aprendizado ao longo da vida”, ressalta.
O corpo também responde.Uma criança que trabalha pode dormir menos, se alimentar mal e viver sob estresse constante.
“Os efeitos do trabalho na infância não se limitam ao trauma psicológico. Eles envolvem estresse, alimentação inadequada e alterações no organismo, que podem gerar problemas físicos e neurológicos e impactar o desenvolvimento como um todo”, pontua.
Com o tempo, esses impactos se acumulam. A criança cresce sobrecarregada de responsabilidades e dificuldades de relações sociais. Na escola, surgem dificuldades. Na vida adulta, as oportunidades diminuem. E, muitas vezes, o caminho se repete.
“As experiências vividas na infância podem influenciar toda a trajetória da pessoa e até se repetir nas próximas gerações”, finaliza.
Educação: quando o estudo perde espaço para o trabalho
A escola ainda está lá. Mas, para muitas crianças, ela já não ocupa o mesmo lugar. No Piauí, os registros do Sistema de Informação para Infância e Adolescência (SIPIA), ferramenta usada pelos Conselhos Tutelares em todo o Brasil, para acompanhar violações de direitos, revelam um cenário que vai além da matrícula. Entre 2025 e 2026, foram 207 casos relacionados à educação, cultura, esporte e lazer.
O dado que mais chama atenção não é a falta de acesso, mas a dificuldade de permanecer. Foram 125 registros de impedimento de permanência no sistema escolar. Também aparecem 39 casos de violação do direito à educação, 22 situações de falta de condições adequadas para estudar e 9 registros de ausência de educação infantil.
Na prática, isso significa que muitas crianças até chegam à escola, mas não conseguem ficar. A rotina muda. O tempo diminui. O cansaço aparece. E, aos poucos, o trabalho ocupa o espaço que deveria ser do aprendizado. Para a pesquisadora do Nupec, esse processo começa cedo e revela fragilidades que vão além da sala de aula.
“A criança até 14 anos não deve trabalhar. Esse é um processo que depende de acompanhamento, cuidado e educação. Mas ainda existem muitas famílias que, mesmo com leis e políticas públicas, não conseguem proteger seus filhos. Na escola, a gente identifica a evasão de crianças pobres. Muitos adolescentes deixam de estudar para trabalhar. Durante a pandemia, a maioria dos jovens que saiu da escola vinha dessas populações mais vulneráveis”, explica.
Para muitas famílias, isso ainda é visto como necessário. “Eles não têm expectativa de futuro. A escola não oferece respostas imediatas, enquanto o trabalho precário traz algum retorno rápido. Mesmo quando continuam estudando, muitos acabam reproduzindo o que já existe dentro de casa, e o futuro profissional se torna incerto”, finaliza.
Fiscalização e denúncias: um problema grande demais para os números que aparecem
Apesar dos dados expressivos de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, o que chega à fiscalização ainda é uma fração mínima desse cenário. Dados do Ministério Público do Trabalho mostram que, ao longo de 2025, apenas 2.745 crianças e adolescentes foram afastados dessa condição em ações da auditoria fiscal. O contraste revela um problema que vai além dos números, a maior parte dos casos continua invisível.
As denúncias ajudam a dimensionar essa realidade, mas também mostram limites. Em 2024, o Disque 100 registrou cerca de 4,2 mil denúncias envolvendo trabalho infantil. Em 2025, esse número subiu para mais de 5,1 mil, um aumento de 19,4%.
Já os dados do Ministério Público do Trabalho apontam um crescimento ainda mais expressivo: 7,9 mil denúncias em 2025, frente a 5,8 mil no ano anterior, alta de 36,6%. São Paulo lidera os registros, seguido por Minas Gerais e Paraná. Mesmo assim, o aumento das denúncias não acompanha a dimensão do problema.
Nos últimos anos, houve avanços na estrutura de fiscalização. Um deles foi a consolidação do Grupo Especial Móvel de Combate ao Trabalho Infantil, que passou a atuar com equipe fixa em todo o país, direcionando ações para regiões e setores mais críticos.
Para que uma fiscalização aconteça, é necessário informar local, tipo de atividade e detalhes da situação. Sem isso, muitos casos não conseguem ser apurados e seguem fora das estatísticas.
Responsabilidade compartilhada
A proteção dessas crianças não depende de um único fator. Família, sociedade e Estado dividem essa responsabilidade. E, embora os responsáveis possam ser acionados em casos extremos, o primeiro olhar é para o contexto de vulnerabilidade. “A responsabilidade é tripla. A família pode ser responsabilizada, mas essa não é a primeira alternativa. Muitas vezes, ela também está em situação de vulnerabilidade. Só em casos extremos isso acontece”, afirma Edno Moura.
Retirar uma criança do trabalho infantil é só o primeiro passo. Para a secretária nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Pilar Lacerda, o enfrentamento exige continuidade e atuação articulada do poder público.
“Não adianta multar se você não retirar essas crianças dessas situações e garantir o que vem depois. É preciso identificar essas crianças, saber se estão na escola, garantir que estejam, entender a situação das famílias e criar condições para que elas permaneçam estudando”, explica.
Para a secretária, o Brasil já avançou na legislação, mas o desafio está na aplicação. Ela também chama atenção para um fator que dificulta esse enfrentamento: a forma como o problema ainda é visto no país.
“Temos legislação avançada, mas apenas ter a lei não resolve. É preciso política pública e mobilização da sociedade. Naturalizamos o trabalho infantil. E isso impede que ele seja enfrentado com a urgência necessária. Em regiões mais pobres, há mais crianças no trabalho infantil. Para mudar isso, é preciso enfrentar essa desigualdade. É fundamental ter dados concretos para entender onde essas crianças estão e como agir”, finaliza.
Primeira infância: um ciclo que não pode ser interrompido
A primeira infância, que vai do nascimento aos seis anos de idade, é o momento em que a vida começa a ganhar forma. É quando o corpo cresce, o cérebro se expande e as primeiras relações com o mundo começam a se desenhar.
É nesse período que tudo começa e que a vida acontece com mais intensidade. Nessa fase, o cérebro trabalha em ritmo acelerado, formando até um milhão de conexões neurais por segundo e construindo, em poucos anos, as bases que vão sustentar todo o desenvolvimento ao longo da vida.
Mas esse processo não acontece sozinho. Cada experiência conta. Cada ausência também. Para se desenvolver plenamente, a criança precisa de cuidado, alimentação, afeto, estímulos, segurança e oportunidades de aprendizagem. É nesse conjunto que se constrói não só o presente, mas também o futuro.
No Piauí, essa realidade ganha dimensão nos números. O estado tem mais de 837 mil crianças e adolescentes de 0 a 17 anos. Desse total, mais de 305 mil estão na primeira infância, uma fase decisiva que exige proteção, cuidado e investimento contínuo.
No Brasil, esse direito está previsto na Constituição. O artigo 227 estabelece que crianças e adolescentes devem ter prioridade absoluta, um compromisso que envolve família, Estado e sociedade. O princípio é reforçado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pelo Marco Legal da Primeira Infância, que orienta políticas públicas voltadas ao desenvolvimento integral.
Na prática, isso significa que toda criança deveria crescer protegida. Mas nem sempre é assim. O trabalho infantil é uma das formas mais visíveis dessa ruptura. Em 2024, mais de 4% das crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos estavam em situação de trabalho infantil no Brasil, segundo o IBGE. Por trás desse percentual, existem histórias que começam cedo demais, infâncias atravessadas pela falta, pela responsabilidade precoce e pela ausência de direitos básicos.
Mais crianças na pré-escola
Nos últimos anos, o país registrou avanços importantes. Um dos principais está na ampliação do acesso à educação infantil. Ataxa de atendimento na pré-escola, voltada para crianças de 4 e 5 anos, já ultrapassa 90% no Brasil, ampliando o acesso à etapa obrigatória da educação básica e fortalecendo oportunidades de aprendizagem desde cedo, segundo dados do Ministério da Educação e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
Estudos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) mostram que crianças que frequentam creches e pré-escolas adequadas tendem a apresentar melhores resultados acadêmicos e maior desenvolvimento socioemocional ao longo da vida.
MPT na Escola: quando o debate começa na sala de aula
O enfrentamento ao trabalho infantil também passa pela educação. Nas escolas, o tema deixa de ser apenas um dado ou uma estatística e passa a ser discutido a partir da realidade dos próprios estudantes. É essa a proposta do projeto MPT na Escola, uma iniciativa do Ministério Público do Trabalho que leva para dentro da sala de aula reflexões sobre o mundo do trabalho e os direitos das crianças.
No Piauí, o projeto tem mobilizado escolas e estudantes no debate sobre o trabalho infantil. Em uma das edições recentes, o MPT na Escola envolveu mais de 19 mil estudantes em 388 escolas no estado, segundo dados do Ministério Público do Trabalho.
A partir de uma formação inicial oferecida nacionalmente, professores passam a trabalhar o tema com os alunos de forma integrada ao cotidiano escolar. Em vez de apenas ouvir, os estudantes são convidados a pensar, questionar e se expressar.
E fazem isso por meio da arte. Desenhos, contos, músicas e poesias se transformam em ferramentas de reflexão. Aos poucos, o que parecia distante ganha forma, cor e significado. O objetivo é despertar uma consciência crítica desde cedo, mostrar que o trabalho infantil não é algo natural, mas resultado de desigualdades e de uma realidade que precisa ser transformada.
No Piauí, o projeto ganhou destaque nacional. Estudantes piauienses conquistaram o segundo lugar na etapa nacional do Prêmio MPT na Escola, na categoria desenho, após vencerem a fase regional. O reconhecimento evidencia não apenas o talento dos alunos, mas o envolvimento das escolas na discussão sobre o combate ao trabalho infantil.
Para o procurador Edno Moura, iniciativas como essa são fundamentais no enfrentamento ao problema.
“O combate ao trabalho infantil não se faz apenas com fiscalização. Ele também passa pela educação. Quando a escola, a família e a comunidade se envolvem, a gente começa a construir uma nova consciência social”, afirma.
Saúde na primeira infância
Assim como a educação, a saúde é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento na primeira infância. É nesse período que o corpo se forma, o cérebro se desenvolve e as bases do bem-estar ao longo da vida começam a ser construídas.
Quando esse cuidado acontece de forma adequada, os resultados aparecem.Nas últimas décadas, o Brasil registrou avanços importantes na área da saúde infantil. A mortalidade infantil foi reduzida em mais de 70%, resultado de políticas públicas como a ampliação da vacinação, o acompanhamento pré-natal e o fortalecimento da atenção básica.
Parte desse avanço está ligada ao Programa Nacional de Imunizações, considerado um dos maiores programas públicos de vacinação do mundo, responsável por proteger crianças contra mais de 20 doenças desde os primeiros meses de vida.
Entre as iniciativas voltadas à primeira infância, o programa Criança Feliz também tem papel importante. A ação realiza visitas domiciliares a famílias em situação de vulnerabilidade, com orientações sobre saúde, desenvolvimento infantil e estímulos adequados para os primeiros anos de vida. Mas esses avanços não chegam a todas as crianças da mesma forma.
No Piauí, o programa alcançou todos os 224 municípios do estado, segundo dados do Governo do Piauí. A iniciativa realiza visitas domiciliares a famílias em situação de vulnerabilidade social para orientar sobre desenvolvimento infantil, vínculos familiares e estímulos adequados nos primeiros anos de vida.
Quando o cuidado não alcança
A especialista em Políticas Públicas para a Primeira Infância, Thaís Ferreira, explica que a ausência de políticas estruturadas desde o início da vida abre caminho para diferentes formas de violação de direitos.
“A ausência de assistência começa no pré-natal. Depois, se estende à creche, à educação, à alimentação, ao lazer. Quando essas crianças chegam a uma certa idade, acabam sendo inseridas como força de trabalho. Isso é reflexo das vulnerabilidades que as famílias enfrentam”, afirma.
Segundo ela, o trabalho infantil é uma consequência direta dessa falha no cuidado. “Quando olhamos para as infâncias mais vulneráveis, percebemos que elas são atravessadas de forma violenta pelo trabalho. Não é só trabalho infantil, é exploração da mão de obra dessas crianças”, destaca.
O desafio de fazer a política funcionar
Para o subsecretário da Política Nacional Integrada da Primeira Infância, Alexsandro Santos, o problema não está apenas na ausência de políticas, mas na forma como elas são executadas.
“A primeira infância é a etapa da vida em que os investimentos públicos têm maior impacto na redução das desigualdades e na construção de oportunidades ao longo da vida. Educação, saúde e assistência social ainda atuam de forma separada, e essa integração é fundamental para que as ações tenham efeito”, afirma.
Ele também chama atenção para as desigualdades entre os municípios brasileiros. “Existem municípios com baixa capacidade técnica e financeira, que dependem do apoio do governo do Estado e da União para implementar políticas de forma eficaz”, ressalta.
Caminhos para garantir proteção desde o início
Nesse cenário, especialistas apontam que o enfrentamento ao trabalho infantil passa pelo fortalecimento das políticas públicas e pelo cuidado integral desde os primeiros anos de vida. A representante da Fundação Van Leer no Brasil, Cláudia Vidigal, destaca que investir na infância é também uma forma de prevenção.
“A educação é uma das principais ferramentas para proteger crianças em contextos de vulnerabilidade. Quando as famílias compreendem o valor da educação desde os primeiros anos de vida, elas conseguem proteger melhor seus filhos do trabalho infantil”, afirma.
Segundo ela, esse processo precisa ser acompanhado por uma rede de apoio estruturada. “Programas de transferência de renda, apoio comunitário e o engajamento dos cuidadores são fundamentais para romper ciclos de pobreza e exclusão”, explica.
No Piauí, a fundação atua em parceria com o governo estadual no âmbito do programa Criança Feliz, contribuindo com visitas domiciliares e iniciativas voltadas à educação infantil, especialmente na pré-escola. Também apoia projetos de tecnologia e integração de dados para melhorar o atendimento às crianças. “Tudo isso é feito em parceria com outras fundações e organizações nacionais, fortalecendo as políticas públicas”, destaca.
Especialistas apontam que investir na primeira infância é uma das formas mais eficazes de prevenir violações de direitos ao longo da vida. Quando políticas públicas garantem cuidado, educação e proteção desde os primeiros anos, aumentam as chances de romper ciclos de pobreza, violência e exploração que, muitas vezes, levam crianças ao trabalho precoce.
O que nasce depois do silêncio
Depois de 15 anos vivendo em silêncio, Janaína reaprendeu a viver e, aos poucos, começou a construir uma história que, por muito tempo, parecia impossível. Hoje, três anos depois do resgate, ela diz que está aprendendo a ter aquilo que nunca teve: infância. Não no tempo certo, mas do jeito possível.
Ao lado de Osmar Rodrigues, o homem que percebeu sua dor e decidiu não ignorá-la, Janaína encontrou acolhimento, cuidado e, principalmente, a chance de recomeçar. Os dois vivem em uma casa simples, na zona Sul de Teresina. Pequena, mas cheia de algo que ela nunca conheceu dentro de quatro paredes: afeto. “Ela foi aprendendo tudo aos poucos. A conversar, a confiar, a viver. Hoje ela sorri, brinca, conversa… é outra pessoa”, conta Osmar.
As mudanças vieram devagar, mas vieram. Janaína passou a se comunicar melhor, a sair de casa sem medo, a olhar nos olhos. Pela primeira vez, comemorou um aniversário. Pela primeira vez, teve fotos para guardar memórias felizes, impressas, guardadas com cuidado, como quem tenta recuperar o tempo perdido.
“Hoje eu me sinto livre. Eu posso sair, posso conversar, posso viver”, diz.
Ela também decidiu transformar a própria dor em cuidado. Janaína se tornou voluntária em um instituto social que atende crianças e adolescentes. Na cozinha, onde passa boa parte do tempo, ajuda a preparar as refeições. Observa cada detalhe: as risadas, as brincadeiras, os cadernos abertos, os desenhos, o barulho de infância acontecendo.
Coisas simples. Mas que, para ela, sempre foram distantes. “Eu olho para eles e vejo tudo o que eu não tive. E dá vontade de ajudar, de cuidar, de fazer parte da vida deles”, conta.
Agora, a vida anuncia um novo capítulo. Janaína está grávida. Pela primeira vez, ela espera por uma infância, não a dela, mas a do filho que está por vir. As roupinhas vão sendo compradas aos poucos, como dá. Entre um gesto e outro, ela imagina o futuro. “Eu vou dar tudo que eu não tive. Amor, cuidado… tudo”, disse.
Ainda tímida, às vezes insegura, Janaína segue reconstruindo a própria história um dia de cada vez. Para ela, cada conquista, por menor que pareça, tem o tamanho de uma vitória. E talvez seja isso que a história dela revela com mais força: que quando a infância é negada, o tempo não volta, mas, quando há cuidado, ela pode, de alguma forma, começar de novo.
