Ciência e futuro: quando o direito à infância define uma vida
Pesquisas mostram por que a primeira infância pode definir o futuro de uma criança.
Existem descobertas científicas que mudam a forma como enxergamos o mundo. Outras transformam a maneira como compreendemos a nós mesmos. Nas últimas décadas, uma delas mudou profundamente o conhecimento sobre o desenvolvimento humano.
Pesquisas realizadas em diferentes países demonstraram que os primeiros anos de vida exercem influência decisiva sobre a formação do cérebro, da aprendizagem, da saúde e das oportunidades que uma criança poderá construir ao longo da vida.
Hoje, essa já não é apenas uma percepção de educadores ou famílias. Trata-se de um consenso científico consolidado por décadas de estudos nas áreas da neurociência, da saúde e do desenvolvimento infantil.
Mais de 18 milhões de crianças brasileiras têm entre zero e seis anos de idade. No Piauí, são cerca de 306 mil. Para todas elas, as evidências científicas apontam a primeira infância como a fase mais decisiva da vida, segundo o Censo Demográfico de 2022, do IBGE.
Mas o que esse conhecimento significa fora dos laboratórios e das universidades? Como ele ajuda a explicar a realidade de milhares de crianças brasileiras?
A infância que ficou para trás
A resposta começa na história de Janaína. Nascida no município de Afonso Cunha, no interior do Maranhão, ela cresceu em uma família simples, filha de pais analfabetos e com cinco irmãos. Sem saber, viveu experiências que, anos depois, passariam a ser reconhecidas pela ciência como decisivas para o futuro de qualquer criança.
Ela cresceu sem acesso à educação de qualidade, acompanhamento regular de saúde e oportunidades de lazer, condições hoje consideradas essenciais para uma infância saudável.
Aos 12 anos, Janaína viajou para Teresina para passar alguns dias na casa da madrinha. A visita, que parecia temporária, nunca terminou. A infância ficou para trás sem despedida.
Durante os quinze anos seguintes, a rotina foi marcada pelo trabalho doméstico. Lavava roupas, preparava refeições, limpava a casa e cuidava das crianças da família. A escola deixou de fazer parte da sua vida. As brincadeiras também.
"Eu via as outras crianças brincando e queria brincar também. Queria passear no parque, mas eu não podia. Era uma dor profunda que eu sentia e nem entendia direito", lembra.
Sem estudar, Janaína não aprendeu a ler nem a escrever. Também cresceu sem acompanhamento médico e sem conviver com outras crianças da mesma idade. Hoje, aos 30 anos, ainda guarda um sonho que, para muita gente, parece simples.
"Meu sonho é escrever o meu próprio nome. Já tentei algumas vezes, mas tenho medo de errar”, conta.
Durante muito tempo, Janaína acreditou que aquela era apenas a vida que lhe havia sido destinada. O que ela não sabia era que muitas das experiências vividas na infância já haviam sido amplamente estudadas.
Hoje, pesquisadores sabem que fatores como afeto, proteção, alimentação, acesso à educação e convivência social exercem influência decisiva sobre a formação do cérebro e podem repercutir por toda a vida.
O que a ciência descobriu
É justamente nesse ponto que a história de Janaína encontra as evidências produzidas pela ciência. Nas últimas décadas, pesquisadores de diferentes áreas chegaram à mesma conclusão por caminhos distintos. Enquanto a neurociência revelou como o cérebro se desenvolve nos primeiros anos de vida, a economia demonstrou que investir nessa fase produz benefícios capazes de acompanhar uma pessoa ao longo de toda a vida.
Para a gerente de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Karina Fasson, essas evidências mudaram a forma como o mundo compreende a primeira infância.
"Temos dois grupos principais de evidências que mostram a importância da primeira infância: as descobertas da neurociência e os estudos da economia. Juntas, elas demonstram que investir no começo da vida é uma das decisões mais importantes para o desenvolvimento de uma criança e para o futuro da sociedade", explica.
Na neurociência, as pesquisas mostram que cerca de 90% do desenvolvimento cerebral ocorre nos primeiros anos de vida. É nesse período que se formam as bases das capacidades cognitivas, socioemocionais e motoras.
As descobertas da neurociência foram acompanhadas por evidências igualmente importantes na economia. Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema é conduzido há mais de cinco décadas pelo economista James Heckman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia.
Ao acompanhar crianças que tiveram acesso à educação infantil de qualidade, os pesquisadores constataram que elas apresentaram melhor desempenho escolar, maior empregabilidade, melhores salários e melhores indicadores de saúde.
Décadas depois, esses benefícios também foram observados entre os filhos dos participantes, mostrando que investir na primeira infância produz efeitos que atravessam gerações. "Investir na primeira infância é o melhor investimento que uma sociedade pode fazer. Os resultados aparecem no curto, no médio e no longo prazo, tanto para as crianças quanto para toda a sociedade", afirma.
Segundo Karina, garantir o pleno desenvolvimento das crianças vai muito além da sobrevivência. "Mais do que garantir a sobrevivência, é preciso garantir o desenvolvimento integral da criança. A criação de vínculos com os cuidadores, essa proximidade e essa conexão humana funcionam como uma cola para o desenvolvimento da criança", explica.
A ciência também ajudou a compreender o valor do brincar. "As crianças aprendem brincando, interagindo umas com as outras e com os adultos. Não basta garantir uma vaga na creche ou na pré-escola. É preciso garantir qualidade para estimular, de fato, o desenvolvimento infantil", ressalta.
Foi justamente esse conjunto de estímulos, vínculos afetivos, proteção, saúde, educação e oportunidades para brincar que faltou durante boa parte da infância de Janaína.
O cérebro também sente
Quando essas experiências são substituídas por situações de estresse, violência, negligência ou responsabilidades incompatíveis com a idade, o desenvolvimento infantil pode ser comprometido.
Para o médico geneticista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mariano Zalis, toda experiência que interrompe a infância interfere diretamente na forma como o cérebro se organiza.
"Toda a vivência que tira a criança da infância interfere diretamente no seu desenvolvimento. Quando ela deixa de brincar, de receber estímulos adequados e de viver relações afetivas saudáveis, isso representa uma ruptura importante na forma como o cérebro se organiza", explica.
Segundo o pesquisador, a infância é marcada por intensa neuroplasticidade, capacidade que o cérebro possui de criar novas conexões e de se adaptar às experiências vividas. Quanto mais rico é o ambiente em estímulos positivos, maiores são as possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento.
"Quando a criança precisa assumir responsabilidades de adulto, deixa de receber amor, afeto e estímulos fundamentais. Isso provoca transformações importantes no cérebro, afetando a plasticidade cerebral, a cognição e a capacidade de aprendizagem ao longo da vida", afirma.
Os impactos não ficam restritos à infância. Estudos nas áreas da neurociência e da epigenética mostram que experiências adversas vividas nos primeiros anos podem influenciar a saúde física, o equilíbrio emocional e até a forma como essa pessoa estabelecerá relações ao longo da vida.
"Essas crianças tendem a apresentar limitações cognitivas, maior propensão ao adoecimento e até um envelhecimento mais precoce. Além disso, quem cresce sem receber cuidado e afeto pode reproduzir esses mesmos padrões nas relações familiares e sociais, perpetuando um ciclo que atravessa gerações", conclui.
As descobertas da neurociência ajudam a explicar como as experiências da infância deixam marcas capazes de acompanhar uma pessoa por toda a vida. Mas elas também conduzem a outra pergunta: por que algumas crianças crescem cercadas de proteção, estímulos e oportunidades, enquanto outras enfrentam privações desde os primeiros anos de vida? A resposta está menos na biologia e mais nas condições em que cada infância acontece.
As oportunidades também nascem desiguais
Se a neurociência explicou como o cérebro se desenvolve, outro conjunto de pesquisas revelou que as oportunidades para esse desenvolvimento também são profundamente desiguais.
Para a pesquisadora Dandara de Oliveira Ramos, do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (CIDACS/Fiocruz Bahia) e professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o futuro de uma criança depende de um conjunto de condições que vai muito além do crescimento físico.
"O desenvolvimento das crianças não depende somente do crescimento e da saúde. Existe um consenso científico de que elas precisam de boa saúde, alimentação adequada, segurança, proteção e oportunidades de aprendizado para se desenvolverem plenamente", explica.
Segundo a especialista, essas condições formam um verdadeiro ecossistema de cuidado. Quando pobreza, insegurança alimentar, falta de saneamento básico e dificuldades de acesso à saúde fazem parte da rotina das famílias, esse ambiente de proteção é comprometido e, com ele, também diminuem as oportunidades de aprendizagem, convivência e desenvolvimento.
"Esses fatores são reconhecidos como determinantes sociais da saúde. Crianças que vivem em famílias mais empobrecidas costumam ter menos oportunidades de estimulação, aprendizagem e desenvolvimento justamente nas fases mais sensíveis da infância", ressalta.
Foi justamente esse cenário que levou os pesquisadores a compreender que as desigualdades não atingem todas as crianças da mesma forma. "Não existe uma criança brasileira universal. Os pontos de partida são diferentes e políticas públicas que não consideram fatores como território, raça e deficiência dificilmente conseguirão responder às necessidades de todas as crianças", pontua.
Para a pesquisadora, as evidências científicas já apontam caminhos capazes de reduzir essas desigualdades. O desafio, agora, é transformar esse conhecimento em políticas públicas efetivas.
"A ciência já mostrou que políticas de proteção social, programas de transferência de renda, fortalecimento da Atenção Primária à Saúde, vacinação e ações integradas entre saúde, educação e assistência social produzem impactos positivos no desenvolvimento infantil. O grande desafio é fazer com que esse conhecimento alcance, de forma efetiva, todas as crianças brasileiras", ressalta.
Quando a ciência encontra a realidade
As descobertas da neurociência ajudam a compreender como os primeiros anos de vida influenciam o desenvolvimento humano. Mas elas também revelam outro desafio: esse direito à infância não é vivido da mesma forma por todas as crianças.
Na prática, fatores como pobreza, desigualdade social, racismo e dificuldades de acesso às políticas públicas fazem com que milhares de crianças brasileiras cresçam sem as condições consideradas essenciais para uma infância saudável.
Os reflexos dessa desigualdade aparecem também nos indicadores do trabalho infantil. No Piauí, 54.366 crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos estavam em situação de trabalho infantil, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2023, analisados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Para a pesquisadora D'Alva Macedo, do Núcleo de Estudos, Pesquisa sobre Crianças, Adolescentes e Jovens (Nupec), da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o trabalho infantil é uma das expressões mais visíveis desse processo de exclusão social. "O trabalho infantil não pode ser analisado isoladamente. Ele está diretamente relacionado às desigualdades sociais, à pobreza e às dificuldades que muitas famílias enfrentam para garantir proteção, educação e acesso aos direitos básicos", afirma.
Segundo a pesquisadora, o problema também é alimentado por uma percepção ainda presente na sociedade de que o trabalho precoce representa uma forma de educação ou de ajuda às famílias. "Ainda existe uma naturalização do trabalho infantil, principalmente quando envolve crianças pobres. Muitas vezes, a sociedade enxerga esse trabalho como algo normal, quando, na verdade, representa uma violação de direitos e compromete o futuro dessas crianças", explica.
Essa realidade também tem cor e território. Crianças negras e moradores das periferias seguem entre as mais expostas ao trabalho infantil e a outras formas de violação de direitos, reproduzindo um ciclo histórico de desigualdades que atravessa gerações.
Para D'Alva Macedo, romper esse cenário exige muito mais do que ações de fiscalização. "É preciso fortalecer políticas públicas, reduzir as desigualdades sociais e garantir que essas crianças tenham acesso à educação, à proteção social e às condições necessárias para viver plenamente a infância", conclui.
O que nasce depois do silêncio
Depois de 15 anos vivendo em silêncio, Janaína reaprendeu a viver. Aos poucos, começou a construir uma história que, por muito tempo, parecia impossível. Hoje, três anos após ser resgatada, ela diz que está aprendendo a viver aquilo que nunca teve: uma infância. Não no tempo certo, mas da forma como a vida ainda lhe permite.
Ao lado de Osmar Rodrigues, o homem que percebeu sua dor e decidiu não ignorá-la, Janaína encontrou acolhimento, cuidado e a oportunidade de recomeçar. Os dois vivem em uma casa simples, na zona Sul de Teresina. Pequena no tamanho, mas cheia de algo que ela nunca havia conhecido dentro de quatro paredes: afeto.
"Ela foi aprendendo tudo aos poucos. A conversar, a confiar, a viver. Hoje ela sorri, brinca, conversa... é outra pessoa", conta Osmar.
As mudanças aconteceram devagar. Janaína voltou a comemorar aniversários, passou a sair de casa sem medo, fez amigos e começou a construir lembranças felizes que antes nunca existiram. "Hoje eu me sinto livre. Eu posso sair, posso conversar, posso viver", diz.
Aos 30 anos, ela também encontrou uma forma de transformar a própria história em cuidado. Tornou-se voluntária em um instituto social que atende crianças e adolescentes. Na cozinha, ajuda a preparar as refeições enquanto observa as brincadeiras, os desenhos e as risadas que, durante muito tempo, fizeram parte apenas da infância de outras pessoas.
"Eu olho para eles e vejo tudo o que eu não tive. E dá vontade de ajudar, de cuidar, de fazer parte da vida deles”, conta.
Para a pesquisadora Dandara de Oliveira Ramos, o maior desafio agora é transformar o conhecimento científico em compromisso permanente com as crianças.
"Precisamos superar a ideia de apenas reduzir as desigualdades e passar a pensar em sua eliminação. As crianças não devem ser vistas apenas como os adultos do amanhã, mas como cidadãs e cidadãos que têm direitos desde agora”, finaliza.
Hoje, Janaína espera o primeiro filho. Enquanto organiza o enxoval e imagina como será a chegada do bebê, também sonha com uma infância diferente daquela que viveu. Pela primeira vez, o futuro deixa de ser lembrado pelas perdas e passa a ser construído pela esperança.
Janaína nunca poderá viver a infância que lhe foi negada. Mas pode construir uma história diferente para o filho. "Meu filho vai ter a infância que eu não tive”, compartilha.
