Violência doméstica: histórias mostram impactos nas famílias e desafios no enfrentamento desses crimes

Histórias revelam como a violência dentro de casa deixa marcas que atravessam gerações.

Tudo parecia começar bem. Quando conheceu o homem que mais tarde se tornaria seu marido, a cerimonialista Cláudia Anchieta acreditou que estava começando uma nova história de amor.

Os dois se conheceram no ambiente de trabalho. Ele prestava serviços para a empresa onde ela atuava, e a convivência acabou aproximando os dois. “Quando o conheci, ele parecia um homem normal. Nós nos apaixonamos e começamos a nos relacionar”, lembra.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Ele passou a aparecer com frequência no local de trabalho dela, perguntava aos funcionários quem havia estado por lá e queria saber detalhes da rotina da companheira. Na época, ela ainda não sabia identificar aquilo como violência.

Com o tempo, a vigilância se tornou ainda mais intensa. Cláudia descobriu que o computador que utilizava estava sendo monitorado. “Percebi que ele queria saber absolutamente tudo sobre a minha vida”, diz.

Gravidez e aumento do controle

Quando engravidou, Cláudia acreditou que a chegada de um filho poderia mudar o comportamento do companheiro. Mas aconteceu o contrário. A pressão dentro de casa aumentou. Ela já era mãe de duas filhas de um relacionamento anterior e estava separada quando conheceu o agressor. Ao descobrir a nova gravidez, lembra que sentiu medo. “Eu chorei muito quando descobri que estava grávida, porque já percebia que algo não estava certo naquele relacionamento”, conta.

Ele dizia ser o provedor da casa, mas exigia que Cláudia colocasse o próprio dinheiro na conta dele.

“Muitas vezes ele me trancava no quarto por horas discutindo, tentando me convencer de que eu estava errada em tudo”, lembra.

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A primeira agressão física

A primeira agressão física aconteceu em 2009. Os dois estavam dentro do carro quando começaram a discutir. O motivo era algo que se tornaria comum ao longo do relacionamento: ele não gostava que Cláudia saísse sozinha ou tomasse decisões sem consultá-lo.

Durante a discussão, ele levantou a mão e deu um tapa no rosto dela. Cláudia lembra que ficou paralisada.

“O susto foi maior que o tapa”, recorda. Ela recorda que essa agressão foi a pior de todas que já sofreu.

No mesmo dia, ela registrou um boletim de ocorrência. O casal chegou a se separar naquele momento, mas acabou retomando o relacionamento cerca de um ano depois.

Um ciclo que se repetia

Nos anos seguintes, o relacionamento passou a ser marcado por um ciclo que se repetia. Mesmo assim, permaneceu na relação por cerca de dez anos.

Segundo ela, apenas os dois primeiros anos foram realmente tranquilos. Depois disso, as agressões passaram a fazer parte da rotina. “Na frente das pessoas ele me tratava bem. Mas dentro de casa a violência acontecia”, conta.

Segundo Cláudia, o agressor também usava a própria filha como forma de pressioná-la emocionalmente. Mesmo assim, romper definitivamente com o relacionamento não foi simples. Hoje ela entende que, naquele período, estava emocionalmente fragilizada. “Eu sempre fui uma mulher independente e trabalhadora, mas aquela situação me enfraqueceu muito psicologicamente”, diz.

Dados sobre a violência contra a mulher

A violência contra a mulher nem sempre envolve agressões físicas. Especialistas alertam que muitos casos seguem um ciclo que começa com agressões verbais ou psicológicas e pode evoluir para situações mais graves, como lesões corporais e até feminicídio.

A história de Cláudia não é um caso isolado. Dados mostram que milhares de mulheres enfrentam situações semelhantes todos os anos no Brasil.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança aponta que, a cada 24 horas, em média, 12 mulheres são vítimas de violência nos estados do Piauí, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo.

Outro dado que chama atenção é que 78,5% das agressões foram cometidas por companheiros ou ex-companheiros, o que mostra que a maior parte dos casos acontece dentro de relações afetivas.

Ao todo, 4.558 mulheres sofreram algum tipo de violência nas regiões analisadas. O número representa um aumento de 9% em relação ao ano anterior.

Crescimento dos casos no Piauí

Dados do Painel de Estatísticas Criminais da Polícia Civil do Piauí apontam que os registros de violência contra a mulher cresceram cerca de 15% entre 2022 e 2025. Os números consideram todas as tipificações desse tipo de crime registradas no estado.

No interior, o avanço foi ainda maior: 21,8% no mesmo período. Em 2025, essas regiões concentraram 56% das ocorrências, o que mostra que a violência contra a mulher se espalha por diferentes partes do estado e já supera os registros da capital.

Perfil do agressor

Dados do Núcleo de Feminicídio do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) mostram que a maioria dos autores das agressões registradas em 2025 tem entre 36 e 38 anos. Mais de 60% dos casos aconteceram dentro de casa, em relações marcadas por vínculo íntimo ou afetivo.

Em entrevista ao Portal Correio Piauiense, a delegada do DHPP, Natália Figueiredo, afirma que muitos desses crimes acontecem quando o agressor não aceita o fim do relacionamento. “O que a gente percebe é que, geralmente, são situações em que houve o rompimento do relacionamento e o agressor não se conforma com o término. Daí a necessidade de a vítima, no contexto de perseguição ou outras formas de violência, realizar a denúncia”, explica.

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Perfil das vítimas

No Piauí, segundo a delegada, o perfil das vítimas revela também desigualdades sociais. Em grande parte dos casos, são mulheres jovens, pretas e moradoras de regiões periféricas. Outro fator que chama atenção é o período em que os casos acontecem com mais frequência.

“A região Norte acaba concentrando um número maior de ocorrências, seguida da região Sul. Quando analisamos não apenas feminicídios, mas também os casos de homicídio investigados pelo DHPP, percebemos essa maior incidência nessas duas regiões da cidade”, explica.

Segundo ela, muitos episódios de violência acontecem dentro de casa e se intensificam principalmente aos fins de semana. “Quando a gente analisa os casos, a grande maioria acontece dentro da casa. Por isso é muito complexo combater esse crime. É necessário trabalhar em duas frentes: repressão e prevenção”, afirma.

Foto: Ilustração/ Correio Piauiense

Retrato dos feminicídios 

No Brasil, o lugar mais perigoso para muitas mulheres ainda é a própria casa. Segundo a pesquisa Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 66,3% das mortes acontecem dentro da residência da vítima. O levantamento também aponta que a arma branca é o instrumento mais utilizado nesses crimes, presente em 48,7% dos casos.

Foi com uma faca que o companheiro matou Luana Alves da Silva, de 30 anos, com cinco golpes. Negra, evangélica e mãe de três filhos, Luana levava uma rotina simples ao lado da família. Na tarde de 19 de maio de 2024, ela foi morta dentro da própria casa, no bairro Nova Brasília, na zona Norte de Teresina. Luana preparava o almoço quando foi atacada pelo companheiro, na frente dos próprios filhos.

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Em entrevista, o pai de Luana, João de Deus, relembrou como tudo aconteceu naquele momento que parecia ser apenas mais uma rotina comum.

Por volta das 11 horas, Luana ligou para o pai e pediu que ele passasse na casa dela. João de Deus foi até lá. Os netos correram para pedir a bênção enquanto, dentro da casa simples, o companheiro de Luana permanecia distante, sentado em uma rede. Segundo o pai, ele não gostava da relação próxima que as crianças tinham com o avô. Os meninos chamavam João de Deus de pai.

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Luana disse que estava preparando o almoço e convidou o pai para comer com a família. Ele recusou porque ainda precisava trabalhar. Antes de sair, porém, algo chamou a atenção dele.“Eu senti que ali naquela casa as coisas não estavam bem. Senti um aperto no coração e disse para minha filha tomar cuidado na vida. Ela respondeu que estava tudo bem, mas eu sabia que no fundo não estava nada bem”, relembra.

Depois da visita, João de Deus saiu para fazer um bico na casa da irmã. Ele ajudava a pintar uma residência e, quando terminou o trabalho, voltou para casa, que fica ao lado da residência da filha. Ao chegar à rua, percebeu que tinha algumas pessoas em frente à casa de Luana. Sem entender o que acontecia, entrou primeiro na própria casa e seguiu pelo quintal até a residência da filha.

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Foi então que encontrou a cena que jamais esqueceria. Luana estava caída no chão da cozinha, ensanguentada. Segundo o pai, a faca usada no crime era a mesma que a filha utilizava naquele dia para preparar o almoço da família.

“Quando eu vi minha filha caída no chão, com muito sangue espalhado, eu fiquei doido. Foi ali que eu percebi que tinham matado ela”, lembra, emocionado.

Dentro da casa também estavam os três filhos de Luana. Desesperadas, as crianças correram para a casa de vizinhos em busca de ajuda. “Elas saíram chorando, pedindo socorro. Foi o mais velho que correu para chamar os vizinhos”, lembra o avô.

Durante a entrevista, João de Deus se emocionou diversas vezes. Em alguns momentos, os netos que estavam por perto preferiram sair da sala quando o avô começou a relembrar o que havia acontecido naquele dia.

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Hoje, João de Deus acredita que a filha enfrentava uma situação muito mais difícil do que demonstrava. Segundo ele, o companheiro de Luana tinha comportamentos agressivos. “Uma vez eu cheguei lá e vi ele pegando o prato de comida dela e jogando fora. Às vezes ele quebrava as coisas dentro de casa”, lembra.

Apesar das situações de violência, Luana quase nunca falava sobre o que estava acontecendo. “Ela escondia. Nunca disse o que ele fazia com ela”, afirma.

A história de Luana não é um caso isolado. O feminicídio, assassinato de mulheres motivado por violência de gênero, ainda faz parte da realidade de milhares de famílias brasileiras.

Impactos invisíveis da violência

A violência doméstica não deixa apenas marcas físicas. Muitas vezes, os efeitos mais profundos são silenciosos e atingem diretamente a saúde emocional das vítimas e de toda a família.

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Segundo o psicólogo Eduardo Moita, mulheres que vivem relações marcadas por agressões constantes costumam desenvolver consequências que podem durar anos.

“Os impactos são muito intensos. Muitas mulheres passam a apresentar depressão, ansiedade e baixa autoestima. A violência vai fragilizando emocionalmente essa mulher e, muitas vezes, faz com que ela se sinta incapaz de romper aquela relação”, explica.

O especialista destaca que fatores sociais também podem tornar esse processo ainda mais difícil. A dependência financeira do agressor, por exemplo, é um dos elementos que frequentemente mantém a vítima presa ao ciclo de violência. “Muitas vezes a mulher não sai da relação porque não tem condições de se sustentar ou de sustentar os filhos. Não é uma escolha permanecer naquela situação, mas a falta de oportunidades e de apoio para reconstruir a própria vida”, afirma.

Os efeitos também atingem diretamente as crianças que convivem com esse ambiente.

“Quando filhos presenciam episódios de violência, isso pode gerar traumas profundos. Em alguns casos, essas crianças crescem acreditando que esse comportamento é normal, o que pode levar à repetição desses padrões na vida adulta. É necessário que haja punição para esses homens, mas também a possibilidade de tratamento. Caso contrário, eles podem continuar repetindo esses padrões”, alerta.

Violência que ultrapassa a vítima

Mas os efeitos da violência doméstica não se limitam ao aspecto emocional e individual. Eles se estendem para toda a estrutura familiar e para a sociedade.

Para a presidente da Comissão de Gênero e Violência Doméstica do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), Adélia Moreira Pessoa, a violência contra a mulher não pode ser vista como um problema restrito ao ambiente doméstico. Segundo ela, o impacto atinge toda a família e se espalha pela sociedade.

“A violência doméstica não é um drama privado, mas uma tragédia pública. A violência contra a mulher é violência contra toda a família”, afirma.

A jurista também chama atenção para formas ainda mais graves de agressão, como a violência vicária, quando o agressor usa os filhos para atingir a mulher. “É uma das formas mais perversas de violência”, destaca.

Feminicídio: um retrato no Brasil

Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número desde a criação da Lei do Feminicídio, sancionada há dez anos. Desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015, mais de 13 mil mulheres já foram assassinadas no país por sua condição de gênero.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra ainda que apenas 13,1% das vítimas tinham medida protetiva concedida pela Justiça quando foram mortas. Em muitos casos, as mulheres sequer chegaram a denunciar os agressores.

No Piauí, os números também acendem um alerta. Embora os registros de feminicídio tenham apresentado queda no início de 2026, outros indicadores mostram o avanço da violência contra a mulher no estado. Dados da Secretaria de Segurança Pública apontam que as prisões realizadas pelas Delegacias Especializadas cresceram 23,3% no primeiro bimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025.

Foto: Ilustração/ Correio Piauiense

O ciclo da violência

Para a delegada Natália Figueiredo, o feminicídio costuma ser o resultado final de um ciclo de violência que muitas vezes começa de forma silenciosa.

Segundo ela, antes do crime extremo, muitas mulheres já enfrentavam outras formas de agressão dentro da própria casa.

“Quando a gente fala em feminicídio, estamos falando da ponta final de um ciclo de violência que não foi rompido”, explica.

Segundo ela, os filhos das vítimas estão entre os que mais sofrem as consequências dessa violência. “A família fica destruída, os filhos ficam desamparados. Existe até um termo chamado “filhos do feminicídio”, explica. 

Investigar para compreender

Os impactos do feminicídio vão muito além das estatísticas criminais. Para investigadores que acompanham esses casos de perto, cada crime representa uma rede de vidas profundamente afetadas, famílias destruídas, crianças que perdem a mãe e comunidades marcadas pela violência.

A delegada Eugênia Villa, responsável pela criação da primeira delegacia do Brasil especializada na investigação de feminicídios, explica que foi a partir dessa realidade que surgiu a iniciativa de entender melhor como esses crimes aconteciam.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Com a criação da unidade, os assassinatos de mulheres passaram a ser analisados sob uma nova perspectiva. Isso permitiu identificar padrões que antes passavam despercebidos nas investigações. Segundo a delegada, esse processo também exigiu mudanças na forma como as vítimas eram ouvidas nas delegacias.

“Quando a mulher dizia que sofria humilhações constantes ou que era obrigada a manter relações sexuais contra a própria vontade, muitas vezes isso não era reconhecido como violência”, afirma.

Justiça e proteção às vítimas

Diante do aumento dos casos de violência contra a mulher, o trabalho do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí (TJPI) tem se tornado uma das principais frentes de proteção às vítimas e de responsabilização dos agressores.

No Piauí, o número de medidas protetivas relacionadas à violência doméstica tem crescido nos últimos anos. Dados dos sistemas de acompanhamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que 18.984 medidas protetivas tramitaram no estado apenas em 2025, consolidando uma tendência de aumento no número de pedidos de proteção judicial.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

O prazo médio entre o início do processo e a concessão da primeira medida protetiva caiu de 14 dias, em 2021, para cerca de um dia em 2025, indicando maior agilidade diante de situações de risco. Previstas na Lei Maria da Penha, as medidas protetivas são instrumentos jurídicos destinados a interromper ou prevenir episódios de violência doméstica.

A advogada Isabella Paranaguá, doutora em Direito de Família e Sucessões, explica que esses mecanismos permitem respostas rápidas do Judiciário para proteger as vítimas.

“As medidas podem ser concedidas pelo Judiciário nas primeiras 48 horas após a denúncia. Entre as principais estão o afastamento do agressor do lar, a proibição de aproximação ou contato com a vítima e seus familiares, a suspensão do porte de armas e a restrição ou suspensão de visitas aos filhos”, explica.

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Segundo a especialista, a legislação também permite decisões emergenciais relacionadas ao direito de família.

“A lei permite que o Judiciário trate de alguns temas de forma emergencial, como a fixação provisória de pensão alimentícia e encaminhamentos iniciais relacionados ao divórcio, além do encaminhamento da vítima e de seus dependentes para programas de proteção”, afirma.

Leis mais rígidas no combate à violência

Nos últimos meses, mudanças na legislação passaram a endurecer o combate à violência contra a mulher no Brasil.

O feminicídio ganhou tipificação própria e teve a pena ampliada para 20 a 40 anos de prisão, além de ser incluído entre os crimes hediondos, considerados de extrema gravidade e com regras mais rígidas, com menos possibilidade de benefícios como redução de pena.

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Também houve aumento na punição para o descumprimento de medidas protetivas, que agora pode chegar a cinco anos de reclusão, além de multa. A nova lei ainda prevê o uso de tornozeleira eletrônica para monitorar agressores.

Atuação do Tribunal de Justiça

Dentro da rede de proteção às mulheres vítimas de violência, o papel do TJPI vai além da análise dos processos judiciais.

A juíza Lucyane Martins, integrante da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (CEVID), explica que o Judiciário atua tanto na proteção imediata das vítimas quanto na articulação de políticas institucionais voltadas ao enfrentamento da violência doméstica.

“O Tribunal de Justiça assume um papel primordial nesse enfrentamento à violência doméstica e a Coordenadoria da Mulher desenvolve diversas ações relacionadas a esse tema”, afirma.

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Entre as iniciativas estão campanhas de conscientização, palestras e programas educativos voltados à orientação das mulheres sobre seus direitos e sobre os canais disponíveis para buscar ajuda. Uma das ações recentes é a campanha “Mulher, Não Se Cale”, que busca incentivar vítimas e testemunhas a romper o silêncio e denunciar situações de violência.

Segundo a magistrada, a rapidez na concessão das medidas protetivas é um dos fatores mais importantes para garantir a segurança das vítimas.

“No Tribunal de Justiça do Piauí, o tempo médio entre o pedido e a decisão judicial é de cerca de 24 horas. Quanto antes a medida é concedida, maior a proteção à integridade física e psicológica da mulher”, explica a juíza.

Além da proteção imediata, o Judiciário também atua na responsabilização criminal dos agressores.

“É importante que haja essa responsabilização de forma célere no julgamento dos processos, justamente para evitar novas situações de violência”, destaca.

Rede de proteção e prevenção

O enfrentamento à violência contra a mulher também depende da atuação integrada de diferentes instituições.

Segundo a juíza, não basta apenas conceder a medida protetiva. É necessário que haja acompanhamento e fiscalização do cumprimento dessas decisões. “É necessário que haja fiscalização do seu cumprimento pelos órgãos de segurança pública e acompanhamento da vítima pelos serviços de assistência social”, explica.

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Esse trabalho conjunto busca garantir que a mulher receba não apenas proteção judicial, mas também apoio psicológico e social.

“Além da proteção e responsabilização, o Judiciário também valoriza ações de conscientização e educação da sociedade, fundamentais para prevenir a violência”, finaliza.

Rede de apoio e acolhimento

Romper o ciclo da violência muitas vezes começa com um pedido de ajuda. No Piauí, uma das principais portas de entrada para esse acolhimento é a Casa da Mulher Brasileira de Teresina, que reúne diversos serviços de proteção em um único local.

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A unidade completou dois anos de funcionamento e tem registrado aumento na procura por atendimento. Em 2025, foram 21.058 atendimentos realizados, um crescimento de 70,8% em relação ao ano anterior. Somente em janeiro de 2026, 404 mulheres procuraram o serviço pela primeira vez.

A coordenadora estadual da unidade, Andrea Bastos, explica que o objetivo da Casa é oferecer atendimento integrado para mulheres em situação de violência.

“Aqui a mulher pode registrar ocorrência, receber orientação jurídica, solicitar medida protetiva e também ter acesso a atendimento psicológico e social. Isso garante mais agilidade no atendimento e evita que a mulher precise procurar vários lugares diferentes para conseguir ajuda”, explica.

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A procura pelo serviço mostra a dimensão do problema. Em um único dia, por exemplo, 42 mulheres já foram atendidas no período entre 7h da manhã e 19h, segundo a coordenação da unidade.

Desafios além da lei

Apesar da gravidade do cenário, a Presidente da Comissão de Gênero e Violência Doméstica do  Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), Adélia Moreira Pessoa, aponta avanços no enfrentamento à violência de gênero. Segundo ela, a maior visibilidade do tema e as campanhas de conscientização têm incentivado mais mulheres a buscar ajuda, contribuindo para a redução da subnotificação.

Ainda assim, faz um alerta. “As leis não bastam”. Para a jurista, medo e vergonha ainda impedem muitas mulheres de denunciar ou de sustentar a denúncia.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Ela destaca o papel do sistema de Justiça na proteção das vítimas e na responsabilização dos agressores, mas defende uma atuação mais integrada, com estruturas como varas híbridas de família e violência doméstica. Para a especialista, o enfrentamento também depende de políticas públicas efetivas. “O lugar da mulher é no orçamento”, reforça.

Como caminho para mudanças duradouras, aponta a educação.

“A educação é uma via indispensável para transformar padrões culturais e construir uma sociedade baseada no respeito e na equidade de gênero”, conclui.

Denúncia como ferramenta de proteção

Romper o silêncio ainda é um dos maiores desafios no enfrentamento à violência contra a mulher. Foi justamente diante dessa realidade que surgiu, no Piauí, uma ferramenta tecnológica criada para facilitar o pedido de socorro.

O aplicativo Salve Maria foi desenvolvido a partir de uma iniciativa da delegada Eugênia Villa, com o objetivo de permitir que vítimas ou testemunhas consigam denunciar situações de violência de forma rápida e segura.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Segundo a delegada, a ideia nasceu após a análise de casos de feminicídio registrados no estado.

“Muitas mulheres eram assassinadas antes que a polícia conseguisse chegar até elas. A gente percebeu que era necessário criar um mecanismo que permitisse que o pedido de ajuda chegasse à polícia com mais rapidez”, explica.

Foi então que surgiu o aplicativo Salve Maria, lançado em março de 2017. Hoje, a ferramenta criada no Piauí passou a inspirar iniciativas semelhantes em outras regiões do país.

“O aplicativo possui dois botões: o botão do pânico e o botão de denúncia anônima. Quando o botão de pânico é acionado, a localização da vítima é enviada diretamente para o Centro Integrado de Operações da Polícia Militar”, explica a delegada.

Como pedir medida protetiva sem sair de casa

Mulheres em situação de violência ou risco podem solicitar medidas protetivas de urgência diretamente ao Judiciário pelo celular, sem precisar ir até uma delegacia ou ter advogado. No Piauí, o pedido pode ser feito pelo WhatsApp, por meio da assistente virtual JuLIA, criada pelo Tribunal de Justiça.

Basta enviar uma mensagem para o número (86) 98128-8015. A partir do primeiro contato, o sistema inicia o atendimento e orienta a vítima a preencher um formulário com informações sobre a situação de risco. Depois do envio, o pedido é encaminhado automaticamente à Justiça e passa a tramitar no sistema eletrônico. O juiz responsável também é avisado, o que ajuda a agilizar a análise.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Recomeços depois da violência

O episódio mais grave aconteceu em 2016, uma semana antes do Dia das Mães. Naquele dia, Cláudia havia pintado as unhas de vermelho, uma cor que o companheiro não gostava. Quando ele chegou em casa e percebeu, disse que ela havia desobedecido. A discussão começou novamente.

Em meio à confusão, na época, a filha mais velha de Cláudia, estudante de Direito, entrou no quarto e fez a denúncia à polícia. Durante a agressão, o companheiro chegou a colocar uma arma na cabeça dela. Pouco tempo depois, a polícia chegou e ele foi preso.

Dias depois da denúncia, a família encontrou um caderno escondido no guarda- roupa. Era o diário da filha mais nova. Nas páginas, a menina escrevia sobre o medo e o sofrimento de ver a mãe ser agredida dentro de casa. Para Cláudia, aquelas palavras foram decisivas e percebeu o quanto a violência também atingia as filhas. Depois daquele episódio, Cláudia decidiu que precisava recomeçar.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Hoje participa de movimentos de apoio a mulheres vítimas de violência e usa a própria história para incentivar outras a romper o silêncio.

“Hoje eu sei que mereço viver em paz. Nenhuma mulher merece viver com medo dentro da própria casa”, afirma.

A vida depois da perda

Na casa simples onde Luana viveu com os filhos, a ausência ainda é sentida todos os dias. Mas o pai, João de Deus, encontrou nos netos a força para continuar. Desde a morte da filha, ele assumiu a criação das três crianças. É ele que acorda cedo, prepara o dia dos netos, leva para a escola e tenta garantir que nada falte. “Eu sou avô, mas também virei pai e mãe deles”, diz.

Nos fins de semana, quando não estão na escola, os netos acompanham o avô no trabalho. Entre uma brincadeira e outra, a rotina da família vai sendo reconstruída. Mesmo assim, a dor permanece. “Eu tenho que me conformar, porque minha filha não volta mais”, afirma.

A filha mais nova de Luana tinha cinco meses quando o crime aconteceu. Recentemente, ao ver uma foto da mãe na parede da casa, a menina abraçou o retrato e perguntou por ela. “Ela chegou perguntando pela mamãe. Viu a foto e abraçou”, lembra o avô.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Os meninos mais velhos ainda carregam as marcas do que presenciaram. “Às vezes eles choram. Eu faço de tudo para cuidar deles”, diz. Um dos filhos de Luana, de 14 anos, tenta seguir em frente mesmo depois da tragédia. Ele diz que quer continuar estudando para construir um futuro diferente. “Eu quero ser policial para proteger minha irmã e outras mulheres”, afirma.

Em menos de um ano do crime, o acusado pelo crime foi condenado a 26 anos de prisão. Ainda assim, João de Deus diz que a sensação de justiça é incompleta. “Eu acho pouco. Porque ele tirou a vida da minha filha”, disse.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Histórias como as de Luana, Cláudia e de tantas outras mulheres mostram que a violência contra a mulher vai muito além do momento da agressão. Ela deixa marcas profundas e transforma para sempre a vida de famílias inteiras.

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