Saneamento e desigualdade infantil: o que muda quando a água tratada chega
Avanço do saneamento impacta a saúde, a educação e a rotina das crianças nas periferias de Teresina.
A garrafa pet avança devagar pela água escura que corta o terreno. Ravi, de três anos, empurra o “barquinho” improvisado com cuidado, acompanhando com os olhos o percurso que ele mesmo desenha na vala. Para ele, é apenas uma brincadeira. Para quem observa com atenção, é esgoto a céu aberto.
A vala atravessa o terreno onde a família mora, no bairro Todos os Santos, zona Sudeste de Teresina, uma região marcada por contrastes, onde ruas com alguma infraestrutura convivem com áreas que ainda enfrentam carências básicas. O odor é constante. Nos dias de chuva, a água sobe, transborda e já chegou a invadir o quintal da casa. Foi nesse cenário que a equipe de reportagem encontrou a família.
Dona Luciana Oliveira, de 32 anos, é mãe de cinco filhos: Ravi, Antônio, Luiza, Isabeli e Rihanna, uma bebê de apenas dois meses. Não trabalha fora. Ela se juntou ainda jovem e não conseguiu concluir os estudos. Dedica o dia inteiro aos cuidados com as crianças enquanto o marido sai cedo para fazer bicos como mecânico. O que ele ganha cobre as contas essenciais como energia, água e alimentação e parte da renda vem do Bolsa Família.
“Hoje minha missão é cuidar deles”, diz, segurando a caçula no colo.
A casa é simples, construída com tijolos aparentes, três cômodos e chão batido. O banheiro fica do lado de fora, é dividido com outras quatro famílias que vivem no mesmo terreno e não tem porta, apenas uma cortina improvisada separa o espaço do restante da área comum.
A água tratada chega pela torneira e representa um avanço em relação ao passado, quando dependiam de poço. Mas o esgoto não tem o mesmo destino. “Quando chove, piora tudo. Já teve vez de a água voltar. Meus meninos vivem com dor de barriga”, conta.
As idas ao posto de saúde se tornaram parte da rotina: diarreia, febre, suspeita de verminose. Doenças que, segundo especialistas, estão diretamente associadas à ausência de saneamento adequado.
A internação da recém-nascida
Pouco tempo depois de voltar da maternidade, a filha mais nova, ainda com dois meses de vida, precisou ser hospitalizada. “Ela ficou quase com pneumonia. Passou uns dez dias internada. Eu fiquei com muito medo, porque ela ainda era muito pequena”, relembra.
Luciana não sabe afirmar o que causou a infecção, mas reconhece que o ambiente onde vivem sempre a preocupa, principalmente nos períodos de chuva, quando o esgoto se espalha com mais facilidade. A filha mais velha, de 12 anos, ajuda nas tarefas domésticas. Um dos meninos, segundo a mãe, pode apresentar sinais de autismo, mas ainda não teve acompanhamento especializado.
Entre cuidados, consultas médicas e incertezas, a rotina segue marcada por resistência e pela esperança de que a realidade possa mudar.
Onde resistir é rotina
Descendo o morro de barro batido, ainda na mesma região, já na Vila Nova Esperança, a paisagem muda aos poucos. A rua é estreita, o chão irregular e as casas simples revelam outra família com desafios que não estão muito distantes dos da primeira história.
A comunidade reúne mais de 1.900 moradores, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Números que ajudam a dimensionar o território, mas não traduzem, sozinhos, o cotidiano de quem vive ali.
Foi nesse cenário que o pequeno Kelvin, de cinco anos, recebeu a reportagem com sorriso aberto. Mostrou a casa com orgulho, apontou cada canto, entrou e saiu do único quarto, explicou onde dorme e onde guarda os brinquedos. Brinca como qualquer criança da idade dele. "Aqui eu me sinto feliz", disse.
A casa fica em um pequeno barranco. É feita de barro, cercada por plantas e tem apenas três cômodos: uma sala que também funciona como cozinha e um quarto onde todos se organizam como podem. Quando chove, a água desce pelo morro e se acumula ao redor da casa, dificultando o acesso. Kelvin já enfrentou diarreia, vômito e dengue. Foram dias de febre, remédio e preocupação. Mas ele se recuperou.
A mãe, Naeli Cristina, de 22 anos, sempre criou o filho sozinha, contando com a ajuda da própria mãe. Nunca foi casada. Está desempregada e divide o tempo entre os cuidados da casa e o desejo de melhorar de vida.
Na mesma casa mora dona Maria de Fátima, avó de Kelvin. Apesar de ter problemas de saúde, dificuldade para respirar e falar, e passar grande parte do tempo deitada, ela não deixa de cuidar do neto.
A família vive com cerca de R$ 800 por mês, valor proveniente de benefício social. É desse dinheiro que saem a alimentação e, quando necessário, medicamentos. O orçamento é apertado e qualquer gasto inesperado pesa. “É pouco, mas eu agradeço a Deus. A gente vai sobrevivendo”, diz Naeli.
A água que chega às torneiras da casa é tratada, mas a infraestrutura ao redor ainda é limitada. Na região onde vivem, não há rede de esgotamento sanitário instalada. A família utiliza um banheiro improvisado no terreno da vizinha. O banho acontece em uma pia externa, no mesmo espaço onde lavam louça e organizam as tarefas do dia a dia. É ali que Kelvin toma banho.
A adaptação faz parte da rotina. Naeli conhece os riscos. “Eu tenho medo dele ficar doente de novo. Criança é mais sensível. A gente tenta cuidar, mas aqui é difícil. Quando chove, eu fico mais preocupada ainda”, contou.
Sem coleta e tratamento adequados de esgoto no entorno, a exposição a doenças aumenta, principalmente entre as crianças, que convivem com umidade constante e água acumulada nos períodos chuvosos. E Kelvin não está sozinho. Outras crianças da Vila Nova Esperança vivem na mesma condição, expostas aos mesmos riscos e às mesmas incertezas.
Mesmo com tantas limitações, há organização. O que chama atenção não está nas paredes de barro nem no barranco que ameaça a casa nos dias de chuva. Está guardado com cuidado dentro de casa: a carteira de vacinação de Kelvin, com todas as doses em dia.
Entre orçamento apertado e ausência de estrutura adequada de saneamento, o cuidado virou prioridade, principalmente quando o assunto é a saúde da criança.
Quando a estrutura não acompanha a infância
Histórias como as de Kelvin, Ravi e Rihanna ajudam a dimensionar um problema que ultrapassa os limites de duas casas.
Em áreas irregulares, ocupações antigas e comunidades periféricas, a cidade cresceu antes que a infraestrutura acompanhasse. Muitas residências de ocupações recentes ainda não estão ligadas à rede geral de esgotamento sanitário. Em alguns pontos, as soluções são improvisadas. Em outros, o esgoto segue sem tratamento adequado, correndo por caminhos que não deveriam existir.
O reflexo não demora. Ele aparece primeiro no corpo das crianças. É nessa realidade que o agente comunitário de saúde, Tadeu Melo, trabalha há 24 anos. Todos os dias, ele percorre a pé ruas estreitas e morros de comunidades periféricas de Teresina. Carrega fichas de cadastro, atualiza informações, observa detalhes que muitas vezes passam despercebidos: uma criança mais quieta que o normal, outra faltando à escola, uma mãe preocupada com sintomas que se repetem.
No território onde vivem essas crianças, ele conhece cada família pelo nome. E reconhece também os padrões que se repetem.
“No dia a dia, é muito comum encontrar crianças com diarreia, verminoses e infecções relacionadas à falta de saneamento e à dificuldade de manter a higiene adequada”, afirma.
Segundo ele, não são casos isolados. “Praticamente toda semana acompanho situações assim. É uma realidade constante nas áreas onde o acesso à água tratada e ao esgoto ainda é limitado”, explicou.
Na prática, a consequência vai além da consulta médica. Uma dor de barriga que se repete vira falta na escola. Uma infecção de pele muda a rotina da casa. Pais deixam o trabalho para acompanhar atendimento. O orçamento, já apertado, precisa incluir remédio.
E, em alguns casos, o quadro evolui. “Já acompanhei situações em que uma diarreia precisou de internação. Criança pequena é mais vulnerável”, pontuou.
Mas Tadeu também testemunhou transformações. Em comunidades que passaram a contar com água encanada, pavimentação e rede de esgoto, a mudança foi perceptível, primeiro nas visitas domiciliares, depois nos registros da unidade de saúde. “A diferença é evidente. Os casos de verminose e infecção diminuem. A procura por atendimento reduz”, finalizou.
Depois de mais de duas décadas caminhando pelas mesmas ruas, ele resume em uma frase o que aprendeu na prática: quando o saneamento chega, a saúde responde.
Quando a doença atravessa o portão da escola
Se em casa os sinais aparecem primeiro no corpo, na escola eles se refletem na frequência e no aprendizado.
A poucos quilômetros dali funciona a Escola Municipal Antônio Ferraz. A unidade atende, nos dois turnos, crianças da comunidade Pedro Bazi e da Vila Nova Esperança, regiões marcadas por contrastes. Parte dos alunos vive em conjuntos habitacionais estruturados. Outra parte mora no morro, em áreas onde a infraestrutura ainda é limitada.
É ali que os impactos da falta de saneamento também se tornam visíveis. A diretora Elita Santos acompanha essa realidade diariamente. Ela conhece as famílias, os trajetos e as ausências que se repetem. “As crianças que moram na parte mais vulnerável são as que mais adoecem”, afirma. Segundo ela, o padrão é claro. “Ou é dor de barriga, ou diarreia, ou febre. São faltas recorrentes”, disse.
Algumas famílias não têm banheiro dentro de casa. Outras enfrentam dificuldade no acesso regular à água. O resultado chega à sala de aula em forma de ausência, cansaço ou dificuldade de concentração. Quando uma criança falta muitas vezes, o conteúdo se acumula. O ritmo da turma segue, mas nem todos conseguem acompanhar. A escola tenta fazer sua parte.
Logo na chegada, professores reforçam orientações sobre higiene, importância da água e prevenção de doenças como a dengue. Durante o lanche, as crianças são orientadas a lavar as mãos. Projetos de leitura e atividades pedagógicas abordam, de forma transversal, temas ligados ao cuidado com o ambiente.
Mas a diretora reconhece que o desafio é maior. “A gente trabalha a importância da água e da higiene, mas ainda precisamos avançar mais em ações específicas sobre saneamento”, explica.
Quando um aluno passa mal durante a aula, a escola liga para a família e orienta a busca pela unidade de saúde. Medicamentos não são administrados. Na prática, a relação entre saúde e educação é direta.
“Quando a criança está doente, ela falta. E quando falta muito, o rendimento cai”, resume.
O que dizem os números e o que acontece no corpo
O acesso básico à água é um direito humano. Apesar dos avanços no abastecimento no Brasil, que atende cerca de 84,2% da população, ainda existem desigualdades regionais e perdas na distribuição, que atingiram 39,9% em dados recentes de 2025.
Dados do IBGE apontam que a rede de esgoto alcançava 62,5% dos domicílios em 2022, número superior aos 52,8% registrados em 2010, mas ainda distante da universalização.
Uma das principais vítimas desse cenário são as crianças que não têm acesso à água limpa e ao esgoto tratado. Elas se tornam mais vulneráveis, com o sistema imunológico mais suscetível a infecções.
Doença diarreica aguda no Piauí
Em 2025, mais de 12 milhões de crianças e adolescentes no Brasil viviam sem acesso adequado à água potável, situação que resultou em mais de 300 mil internações por ano por doenças de veiculação hídrica, como diarreia e infecções. O Nordeste concentra o maior número de internações na primeira infância, segundo dados do Unicef e do Instituto Trata Brasil.
No Piauí, o cenário não foi diferente. O estado registrou mais de 164 mil casos de Doença Diarreica Aguda (DDA), segundo a Secretaria de Saúde do Estado (SESAPI). A maior parte das ocorrências, cerca de 109 mil, atingiu pessoas com 10 anos ou mais, mostrando que a doença não é exclusividade da infância. Entre crianças menores de cinco anos, foram contabilizados aproximadamente 27 mil casos.
Os picos de notificações concentraram-se no início do ano, especialmente entre as semanas epidemiológicas 5 e 10. A partir do meio do ano, os casos diminuíram gradualmente, e a maioria dos atendimentos foi classificada no Plano A, indicando quadros mais leves e manejáveis na atenção básica. Em Teresina, na Regional IV de Saúde, mais de 85 mil casos foram registrados, seguindo o mesmo padrão: predominância em pessoas acima de 10 anos e queda progressiva no segundo semestre.
Para especialistas, o saneamento básico é um pilar essencial da saúde pública. A nefrologista Ana Paula Melo explica que o adoecimento infantil nesse contexto se manifesta principalmente por meio de diarreias infecciosas, verminoses, hepatite A, giardíase e infecções urinárias recorrentes, doenças fortemente associadas ao consumo de água contaminada e à ausência de esgotamento sanitário adequado.
“Isso acontece porque o sistema imunológico infantil ainda está em desenvolvimento, assim como os rins. Além disso, as crianças desidratam com mais facilidade e têm menor capacidade de defesa frente às infecções, o que faz com que quadros aparentemente simples evoluam de forma mais grave. Infecções repetidas podem provocar atraso no crescimento, déficit cognitivo, desnutrição e lesões renais crônicas, comprometendo a saúde ao longo da vida e aumentando o risco de doenças futuras”, explica a especialista.
Ana Paula reforça medidas preventivas enquanto o acesso pleno ao saneamento não é realidade para todos: ferver ou filtrar a água antes do consumo, manter rigor na higiene das mãos, observar sinais de diarreia ou infecção e procurar atendimento médico de forma precoce.
Um problema que não termina na cidade
Se nas áreas urbanas o acesso ao saneamento ainda é desigual, nas zonas rurais o desafio é ainda maior.
Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento mostram que, em 2022, 64,1% da população urbana era atendida por rede coletora de esgoto. Quando se considera toda a população brasileira, incluindo as áreas rurais, o índice cai para 55,8%. A diferença parece pequena no papel. Mas, na prática, representa milhões de pessoas sem acesso adequado.
Em entrevista ao Correio Piauiense, o pesquisador Paulo Barrocas, do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), explica que o Brasil ainda enfrenta um atraso histórico na universalização do saneamento, especialmente fora dos grandes centros.
“Temos um déficit sanitário elevado nessas regiões, o que contribui para a manutenção de doenças endêmicas como a esquistossomose. Isso afeta desproporcionalmente as crianças, que estão mais vulneráveis aos riscos sanitários”, afirma.
Segundo o pesquisador, o impacto vai além do adoecimento imediato. “Esses agravos à saúde podem provocar desnutrição, atraso no crescimento e comprometimento do desenvolvimento das funções cognitivas”, explicou. A consequência chega também à escola.
“Sem saneamento adequado, alunos faltam às aulas para buscar água, e meninas deixam de frequentar a escola durante o período menstrual. Esses múltiplos impactos podem criar ciclos de pobreza difíceis de romper”, pontuou.
A engrenagem que sustenta a cidade
Por trás de cada torneira aberta em Teresina, existe uma engrenagem que não para. Em uma capital que avança na ampliação do saneamento, a estrutura que sustenta o abastecimento funciona de forma contínua e silenciosa, garantindo que a água tratada chegue com segurança e regularidade às casas da cidade.
A Águas de Teresina alcançou a universalização do abastecimento de água tratada na zona urbana da capital, atendendo cerca de 1 milhão de habitantes, o equivalente a 100% da população urbana.
Universalizar significa que, na prática, não há mais bairros urbanos fora da rede formal de água tratada. Um marco histórico para a cidade.
O volume anual produzido e tratado chega a aproximadamente 106,9 milhões de metros cúbicos. Esse fornecimento é sustentado por uma rede de distribuição que soma 3.142 quilômetros de extensão, além de 138 poços tubulares profundos ativos, 43 estações elevatórias e 93 reservatórios espalhados pela capital. É uma infraestrutura que opera 24 horas por dia para atender mais de 1.036.440 ligações ativas.
Quando assumiu a concessão, a cidade contava com apenas 19% de cobertura de esgotamento sanitário. Hoje, o índice alcança 59% da população. O avanço é expressivo e representa uma mudança estrutural no cenário do saneamento local.
Atualmente, cerca de 310 mil pessoas são atendidas por uma rede de esgoto com 680 quilômetros de extensão. O volume anual tratado chega a 10,4 milhões de metros cúbicos. Embora a universalização do esgoto ainda seja um desafio, os investimentos seguem concentrados na ampliação da rede coletora e das estações de tratamento.
Diariamente, cerca de 40 milhões de litros de esgoto passam por 29 Estações de Tratamento antes de retornarem ao meio ambiente dentro dos padrões exigidos. O impacto é ambiental, sanitário e social.
Do rio à torneira
O percurso começa na margem do Rio Parnaíba. Motobombas elevam a água bruta até as estações, onde ela passa por etapas técnicas rigorosas: coagulação, floculação, decantação, filtração e cloração.
“O sistema funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, com equipes de operação, manutenção e controle de qualidade. Em média, a água leva cerca de uma hora desde o início do tratamento até estar pronta para entrar na rede de distribuição”, explicou o coordenador de operações da Águas de Teresina, Inácio Soares.
Na ETA Leste, a capacidade chega a 3 mil litros por segundo, o equivalente a aproximadamente 11.400 metros cúbicos por hora. Esse volume abastece cerca de 80% da cidade de forma contínua. O fluxo não para. Enquanto a água chega agora à casa de uma família, outro volume já está em tratamento. A produção é simultânea, encadeada e permanente.
Ao longo do ano, milhares de análises laboratoriais são realizadas para garantir conformidade com os padrões de potabilidade definidos pelo Ministério da Saúde. Cada etapa é monitorada para evitar falhas e assegurar estabilidade operacional.
“É fundamental acompanhar fase por fase para garantir segurança no nosso principal produto. Se alguma etapa apresenta intercorrência, conseguimos agir sem comprometer as demais. É um trabalho minucioso, que exige profissionalismo e atenção constantes”, afirma o coordenador.
Investimento e compromisso
O abastecimento de água foi universalizado em 2020. Agora, o foco está na ampliação da coleta e tratamento de esgoto. A meta é alcançar 90% de cobertura até 2033, com investimento total previsto de R$ 1,7 bilhão ao longo da concessão, sendo R$ 660 milhões aplicados nos próximos cinco anos.
Entre os projetos em andamento está a implantação de 135 quilômetros adicionais de rede de esgotamento sanitário, com investimento estimado em R$ 112 milhões. As obras incluem um novo modelo de pavimentação em duas camadas, pensado para oferecer maior durabilidade às vias e reduzir impactos à população.
Água como política de saúde
Para Inácio Soares, garantir qualidade no abastecimento é também uma forma de fortalecer a saúde pública.
“A água é um recurso essencial e, quando não tratada corretamente, pode ser vetor de doenças. Nosso papel é garantir que ela chegue com segurança às casas das pessoas, com seriedade e transparência”, explica.
Ele destaca o impacto direto nas crianças.
“Quando a água é segura, as crianças adoecem menos, frequentam mais a escola e têm melhores condições de desenvolvimento. Garantir esse acesso é contribuir para o crescimento saudável da cidade”, finalizou o coordenador.
A régua nacional do saneamento
O avanço registrado em Teresina não ocorre isoladamente. Ele está inserido em uma política nacional que redefiniu as regras do setor e estabeleceu metas ambiciosas para todo o país. Com a atualização da Lei nº 11.445/2007 pela Lei nº 14.026/2020, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) passou a editar normas de referência para a regulação dos serviços de saneamento básico em âmbito nacional.
Na prática, a Agência define diretrizes que orientam estados e municípios sobre metas de universalização, padrões de qualidade, governança e sustentabilidade econômico-financeira dos contratos.
As metas são claras: garantir que 99% da população brasileira tenha acesso à água potável e que 90% disponha de coleta e tratamento de esgoto até 2033.
Segundo a superintendente de Assuntos Institucionais da ANA, Renata Maranhão, o papel da Agência é estruturar o ambiente regulatório para viabilizar investimentos e assegurar qualidade na prestação do serviço. “A ANA promove o controle da qualidade da água com foco na saúde pública, na segurança operacional e no estímulo a investimentos em infraestrutura”, afirma.
Ela ressalta que as metas monitoradas pela Agência não são desenhadas especificamente para reduzir doenças, mas que esse é um efeito direto da expansão do saneamento.
“Existem metas nacionais monitoradas pela ANA, mas elas não são metas específicas para redução de doenças. A redução de doenças de veiculação hídrica é uma consequência esperada da ampliação dos serviços. Ao melhorar o abastecimento de água tratada, reduz-se o risco de contaminação fecal-oral, principal causa de doenças hídricas. A atuação da ANA contribui para mitigá-las de diversas formas”, explicou.
O desafio ainda é estrutural
Apesar do novo marco legal, o cenário nacional ainda revela desigualdades significativas. Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), administrado pelo Ministério das Cidades, mostram que, em 2024, cerca de 40% da água tratada no país foi perdida antes de chegar ao consumidor final. Vazamentos, ligações clandestinas e falhas de medição estão entre as principais causas.
As regiões Norte e Nordeste concentram os maiores índices de desperdício e os menores patamares de cobertura de esgotamento sanitário. Atualmente, pouco mais de 60% da população brasileira conta com coleta de esgoto. O índice de tratamento é ainda menor: apenas 51,8% do esgoto gerado no país recebe tratamento adequado.
O diagnóstico aponta que, embora as regras e normas que organizam o setor já estejam definidas, a universalização depende de investimentos consistentes, eficiência operacional e fortalecimento das agências reguladoras locais.
Água, saúde e comunidade
Quando a água tratada chega de forma contínua e o esgoto passa a ter destino adequado, os efeitos não se limitam aos indicadores técnicos. Eles alcançam a saúde pública, a frequência escolar, a renda familiar e a organização da vida cotidiana, especialmente na infância.
Em Teresina, a Águas de Teresina desenvolve projetos sociais que acompanham a expansão da infraestrutura de saneamento básico. A proposta é integrar rede física e rede de informação, porque acesso sem orientação também produz lacunas. Entre as iniciativas estão a Tarifa Social e o Saúde Nota 10.
A Tarifa Social oferece descontos nas contas de água e esgoto para famílias de baixa renda, conforme critérios estabelecidos em contrato. O objetivo é garantir que o acesso à água tratada não seja interrompido por dificuldades financeiras, especialmente em lares onde o orçamento já é comprometido por outras despesas essenciais.
A manutenção do serviço contínuo é fator determinante para a prevenção de doenças de veiculação hídrica, que atingem com maior intensidade crianças expostas a água contaminada ou à ausência de esgotamento sanitário adequado.
Moradora do bairro Dirceu, a auxiliar administrativa Sandra Santos é beneficiária do programa e mãe de Analu, de oito anos. Para ela, o desconto representa mais do que economia: significa tranquilidade dentro de casa.
“Esse programa me trouxe, além de economia, um incentivo ainda maior para valorizar o que recebo diariamente em casa, que é a água potável. Me sinto muito feliz em ver minha filha tomando banho, bebendo água e feliz após almoçar e ir para a escola. São motivações e direitos que valem a pena”, explica.
A rotina de Analu, com banho seguro, água filtrada no copo e presença constante na escola, traduz em escala doméstica o que as estatísticas apontam, que o saneamento básico é uma política preventiva.
O coordenador de Ação Social da Águas de Teresina, Diecson Prado, afirma que as ações sociais também têm caráter educativo e preventivo.
“Levar informação sobre a importância da água tratada e do saneamento básico é falar de saúde. Quando a população entende como esses serviços evitam contaminações e doenças, fortalecemos uma cultura de cuidado coletivo”, afirma.
Segundo ele, mais de 15 ações já foram realizadas no município, com foco em educação ambiental, uso consciente da água e orientação sobre ligação regular à rede de esgoto. O projeto Saúde Nota 10 é um dos principais e atua em escolas, comunidades e espaços públicos, aproximando o tema da realidade das famílias e das crianças.
Em áreas ribeirinhas e regiões de maior vulnerabilidade, a informação é tratada como ferramenta de prevenção. A combinação entre infraestrutura ampliada, tarifa acessível e educação ambiental forma um tripé que sustenta não apenas o serviço, mas a saúde da cidade.
Porque saneamento não se resume a obra concluída ou meta contratual cumprida. Representa menos contaminação invisível, menos faltas na escola, infância protegida e mais estabilidade dentro de casa.
O futuro que começa na torneira
Para Luciana, no bairro Todos os Santos, falar de saneamento é falar de dignidade. Ela olha para Ravi brincando no quintal e para a bebê que dorme no colo e resume o que deseja: que a água tratada continue chegando todos os dias e que o esgoto deixe de correr a céu aberto.
“Eu só quero que meus filhos cresçam com saúde. Que não precisem viver do jeito que a gente vive hoje. A água tratada já ajuda muito. Agora eu peço a Deus que o saneamento chegue de vez, para melhorar tudo”, diz.
Ela sabe que não está falando apenas de obra. Está falando de futuro.
Na Vila Nova Esperança, Naeli também projeta os próximos anos a partir do que hoje ainda falta. Kelvin corre pela casa de barro, sobe o barranco, volta sorrindo. É criança. E, como toda criança, depende do que os adultos constroem ao redor.
“Eu quero que meu filho cresça forte, estudando, sem ficar doente toda hora. Que ele tenha uma vida melhor do que a minha. Água boa já tem, graças a Deus. Agora falta melhorar o resto. Se o esgoto chegar, muda muita coisa”, afirma.
As duas famílias vivem realidades diferentes, mas compartilham o mesmo desejo: que os filhos cresçam em um ambiente mais seguro do que aquele que receberam.