Da habilidade ao negócio: o papel da administração no empreendedorismo

Em Teresina, um projeto de costura transforma conhecimento em renda e novas oportunidades.

Uma habilidade pode nascer dentro de casa, passar de geração em geração ou surgir da necessidade de criar uma nova fonte de renda. Na economia criativa, conhecimentos, talentos e criatividade podem chegar ao mercado e ganhar valor. Mas entre saber fazer e viver do que se faz, existe um caminho que vai além da produção. É preciso entender o mercado, organizar recursos, definir preços, controlar custos e tomar decisões.

É nesse processo que a administração entra como parte do empreendedorismo. A administração ajuda a transformar uma atividade em negócio e cria condições para que ele possa continuar funcionando, crescer e gerar resultados.

Na periferia de Teresina, no Piauí, mulheres encontram na criatividade uma oportunidade de construir renda, autonomia e novos caminhos. Algumas aprendem uma habilidade; outras ensinam o que sabem. E, nesse movimento, o conhecimento passa de uma pessoa para outra e também pode se transformar em empreendimento.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

A história de Marilena Pereira começa nesse cenário. Mulher negra e moradora de comunidade, ela encontrou na costura uma possibilidade de trabalho e decidiu compartilhar o que sabia com outras mulheres. O que começou com uma máquina de costura e a vontade de ensinar ganhou novas dimensões. Virou aprendizado, produção, renda e negócio. E, para permanecer, precisou de administração.

Habilidade que virou negócio

Na Vila da Glória, na zona sul de Teresina, do projeto Costurando Sonhos nasceu a Ributálio, marca autoral criada por Marilene a partir do trabalho artesanal desenvolvido na comunidade. A história começou entre retalhos de linho que haviam sido descartados. Nas mãos da costureira, o que era sobra ganhou novas possibilidades: bordados, peças artesanais e roupas customizadas.

“Quando aquele retalho chegou às minhas mãos, eu percebi que dali poderiam surgir muitas coisas. Bordados, peças artesanais, roupas customizadas. Como costureira, eu sabia que aquele material podia ganhar novos significados. Foi quando pensei que esse conhecimento também poderia ser compartilhado com outras mulheres”, lembra.

A vontade de compartilhar o que sabia deu origem, em 2017, ao Costurando Sonhos, projeto que passou a oferecer aulas de costura, bordado e artesanato. Cerca de 80 mulheres já passaram pelo espaço. Algumas começaram a produzir em casa, outras abriram pequenos negócios e muitas encontraram na atividade uma nova possibilidade de renda.

O projeto se tornou também um espaço de aprendizado coletivo. Enquanto Marilene ensina, alunos e voluntários participam da rotina e outras mulheres aprendem uma habilidade que pode abrir caminho para o próprio negócio. O conhecimento passou a circular pela comunidade.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Com o tempo, as peças produzidas ali começaram a chamar a atenção de quem estava fora. A procura pelos produtos trouxe uma nova questão: como transformar aquela produção em recursos capazes de manter o projeto funcionando?

Foi nesse momento que Marilene passou a enxergar a costura também como atividade econômica. A resposta veio com a criação da Ributálio, marca de peças feitas à mão que reúne bordados, linho e referências à cultura piauiense.

O trabalho ganhou identidade comercial e passou a ocupar espaço no mercado. Hoje, Marilene produz e comercializa cerca de 70 peças por mês, com faturamento entre R$ 8 mil e R$ 10 mil. Mas o resultado não termina nas vendas. Cerca de R$ 3 mil por mês retornam ao projeto social, ajudando a manter o projeto que continua formando mulheres da comunidade.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Assim, a marca passou a cumprir uma função que vai além do mercado: gerar recursos para que o conhecimento continue sendo compartilhado. Foi também quando Marilene percebeu que, para fazer esse ciclo funcionar, precisaria aprender uma parte do negócio que não estava na máquina de costura.

A procura pelos produtos mostrou a necessidade de compreender custos, precificação, atendimento, divulgação e captação de recursos. Ela buscou cursos de gestão e orientação para organizar o trabalho e levar esse conhecimento para dentro do projeto. “Eu tive que tomar a decisão de como fazer para transformar esse trabalho em uma maneira que eu possa manter o projeto. Tudo isso eu tive que procurar, entender lá fora, para poder trazer aqui para dentro do projeto”, explica.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Uma das primeiras mudanças foi na organização dos voluntários. Cada pessoa passou a ter uma função definida.“Eu coloquei cada um na organização, cada um com a sua atividade. Isso fez a diferença”, afirma.

A aproximação com o Sebrae também ajudou Marilene a compreender melhor o público e a enxergar as feiras de outra maneira. Mais do que espaços para vender, elas passaram a ser oportunidades para observar o mercado, entender o que os consumidores procuram e levar essas informações de volta para a produção. “Hoje eu participo de feiras, onde lá a gente não só vende, a gente faz negócios. A gente vê o que o público está precisando e eu trago isso para dentro do empreendimento”, afirma.

O linho e os bordados ganharam valor não apenas como matéria-prima, mas como parte da identidade do produto. A habilidade virou produção; a produção encontrou o mercado; e o mercado passou a ajudar a sustentar o projeto. Para Marilene, a mudança pode ser resumida em uma palavra: “Então o que mudou foi a administração”, diz. 

Um movimento que vai além da comunidade

A história de Marilene não termina na Vila da Glória. O que acontece ali faz parte de um movimento maior: mais de 144 mil mulheres lideram negócios próprios no Piauí, segundo dados do DataSebrae e da PNAD Contínua do IBGE de 2025. Elas representam 33,9% dos empreendedores do estado.

Na capital, o movimento também aparece nos registros formais. Teresina reúne 2.657 empresas ativas lideradas por mulheres, segundo dados da Junta Comercial do Estado do Piauí (Jucepi).

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Esse empreendedorismo também encontra espaço na economia criativa. Segundo o Índice de Desenvolvimento Potencial da Economia Criativa (IDPEC), a atividade representa 3,59% do PIB brasileiro e movimenta quase R$ 400 bilhões por ano.

Para a professora Kellen Carvalho de Sousa Brito, pesquisadora da área de Economia Feminista da Universidade Federal do Piauí (UFPI), esse movimento está relacionado à própria forma como o trabalho feminino foi historicamente organizado.

“Durante muito tempo, as mulheres foram associadas principalmente ao trabalho doméstico e ao cuidado com a família. Muitas vezes, sobra pouco tempo para desenvolver atividades voltadas ao mercado de trabalho. Por isso, o empreendedorismo acaba surgindo como uma alternativa para complementar a renda sem abandonar responsabilidades que continuam recaindo sobre elas”, explica.

Foto: Narcílio Costa/ Correio Piauiense

Mas, segundo a pesquisadora, há outro elemento nessa trajetória: o conhecimento que já existe dentro das comunidades. “São saberes construídos ao longo da vida, ligados à cultura local, às tradições e às experiências compartilhadas entre gerações. O que acontece é que essas mulheres conseguem transformar esse conhecimento em oportunidade de renda e melhoria das condições de vida”, afirma.

No Brasil, essa presença também aparece na abertura de pequenos negócios. Em 2025, mais de 2 milhões dos 4,96 milhões de MEIs e micro e pequenas empresas abertas no país eram liderados por mulheres, cerca de 42% do total, segundo o Sebrae. E quando uma mulher compartilha aquilo que aprendeu, o impacto pode ir além do próprio negócio.

“Uma ensina a outra. Uma compartilha o que aprendeu. Outra transforma esse aprendizado em uma nova fonte de renda. O conhecimento, assim, deixa de pertencer a uma única pessoa e passa a produzir novas possibilidades ao redor dela”, explica.

Quando saber fazer não basta

Saber produzir bem é o ponto de partida. Mas, quando essa habilidade chega ao mercado e começa a gerar vendas, despesas e resultados, surge uma nova necessidade: administrar aquilo que foi criado.

Para a administradora Noelia Alves da Silva, dominar tecnicamente uma atividade não significa, necessariamente, saber conduzir um negócio. “Existe uma grande diferença entre dominar tecnicamente uma atividade e saber transformá-la em um negócio. Quando o empreendedor passa a enxergar aquilo que faz como uma empresa, percebe que não basta apenas fazer bem: é preciso planejar, organizar, dirigir e controlar recursos, processos, pessoas e resultados”, ressalta.

A experiência profissional de Noelia ajuda a explicar essa diferença. Em uma rede de clínicas odontológicas, enquanto o proprietário concentra o conhecimento técnico, ela atua na administração de processos, pessoas, estratégias comerciais, planejamento e resultados.

“Essa experiência mostra que conhecimento técnico e conhecimento de gestão são competências diferentes, mas complementares. O conhecimento técnico garante a qualidade do serviço entregue, enquanto a administração cria as condições para que esse conhecimento se transforme em um negócio organizado, sustentável e capaz de crescer”, explica.

Para a especialista, a administração não deve entrar apenas quando o negócio cresce. Ela precisa acompanhar a atividade desde o início.

“O empreendedor pode se qualificar em administração e aprender na prática, o que pode ser um caminho mais demorado, ou contratar profissionais qualificados e dar autonomia para que façam a gestão”, diz.

Sem esse olhar, problemas como falta de planejamento, processos desorganizados, dificuldades na contratação e decisões sem conhecimento do mercado podem comprometer os resultados.

“Pensar que sabe gerir: conhecimento técnico não é conhecimento de administração. Não saber contratar: pessoas erradas comprometem toda a operação. Não planejar e não ter rotina: a empresa vive resolvendo urgências”, ressalta.

A tecnologia também não substitui esse planejamento. Para Noelia, mesmo ferramentas como a inteligência artificial precisam estar subordinadas à estratégia. “Tecnologia sem estratégia não faz milagre”, conclui.

Da renda ao desenvolvimento

Quando uma habilidade passa a gerar renda de forma recorrente, o desafio deixa de ser apenas produzir e vender. Entram em cena decisões sobre custos, preços, público, organização financeira e planejamento.

Para Isabela Regina Fornari Muller, vice-diretora de Formação Profissional do Conselho Federal de Administração (CFA), é nesse momento que a Administração se torna determinante.

“Saber produzir um bom produto ou prestar um bom serviço é fundamental, mas não suficiente para garantir a sustentabilidade do negócio. A Administração transforma essas decisões em uma estrutura capaz de sustentar a atividade”, explica.

A presença feminina no empreendedorismo também aparece entre as próprias profissionais de Administração. Um levantamento realizado pelo CFA com 1.231 mulheres mostrou que 31% possuíam negócios formalizados e 9% mantinham empreendimentos informais. Entre aquelas com negócios formalizados, 40% eram microempresas, 28% eram MEIs e 24%, pequenas empresas.

GRÁFICO COM DADOS NACIONAIS

Os números aproximam duas dimensões presentes na reportagem: o crescimento do empreendedorismo feminino e a necessidade de gestão para conduzir esses negócios.

Nas micro e pequenas empresas, muitas vezes o empreendedor concentra diferentes funções: produz, vende e administra. Por isso, segundo Isabela, conhecer os números e tomar decisões com base neles pode fazer diferença na continuidade do negócio.

“O primeiro passo para quem está pensando em empreender é elaborar um plano de negócios. Na sequência, é fazer um planejamento, ainda que simples, estabelecendo objetivos, identificando o público e entendendo o mercado”, ressalta.

Um dos pontos mais sensíveis está na precificação. Vender muito não significa, necessariamente, ter lucro. Custos de matéria-prima, mão de obra, despesas, impostos e margem precisam entrar na conta.

“Um preço mal calculado pode gerar a falsa sensação de que o negócio está dando lucro quando, na realidade, está apenas movimentando dinheiro”, diz.

Essa dificuldade aparece também em pesquisa realizada pelo CFA em parceria com o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP). O levantamento ouviu mais de 110 empreendedores de diferentes segmentos e regiões e identificou dificuldades relacionadas à gestão financeira, acesso a crédito e capacitação gerencial. Entre os entrevistados, 69,2% afirmaram ter começado a empreender em busca de autonomia e independência.

Para a vice-diretora de Formação Profissional do CFA, o impacto da Administração ultrapassa o caixa da empresa.

“Uma MPE bem administrada não beneficia apenas o seu proprietário. Ela pode se transformar em um importante instrumento de desenvolvimento econômico e social”, explica.

Do negócio à empresa

Uma habilidade pode colocar um produto no mercado. Mas, à medida que as vendas aumentam, outras decisões passam a fazer parte da rotina: planejar, organizar recursos, acompanhar resultados e pensar nos próximos passos.

Para a administradora Noelia Alves, é nesse momento que fica clara a diferença entre simplesmente ter um negócio e construir uma empresa estruturada.

“Já uma empresa estruturada tem clareza sobre o presente e planejamento para o futuro, com processos, pessoas, estratégias e objetivos bem definidos”, explica.

Na prática, o olhar do administrador vai além do produto ou serviço. Envolve finanças, processos, pessoas, mercado, planejamento e tomada de decisões.

“O profissional de administração tem justamente essa capacidade de olhar o negócio de forma integrada. Uma empresa estruturada está mais preparada para crescer, inovar, enfrentar mudanças e expandir de forma sustentável. Por isso, a administração deve ser entendida não como algo restrito às grandes empresas, mas como uma ferramenta essencial para a sobrevivência, a profissionalização e o crescimento das MPEs”, finaliza.

Quando a gestão faz o negócio permanecer

Para Marilene, transformar a habilidade em negócio foi apenas o começo. Com o tempo, a gestão passou a ocupar outro lugar: uma ferramenta para manter a atividade funcionando, acompanhar o mercado e tomar decisões sobre os próximos passos.

A marca passou a ser pensada para além da produção artesanal. A participação em feiras aproximou a Ributálio dos consumidores, ajudou a identificar novas demandas e trouxe informações que passaram a orientar o que é produzido e comercializado.

“Hoje eu participo de feiras, onde lá a gente não só vende, a gente faz negócios. A gente vê o que o público está precisando e eu trago isso para dentro do empreendimento”, explica.

O resultado também aparece no movimento financeiro. Com um faturamento de cerca de R$ 10 mil por mês, a marca pode alcançar aproximadamente R$ 120 mil em um ano, caso mantenha esse ritmo. Parte desse recurso retorna ao projeto Costurando Sonhos, contribuindo para a manutenção das atividades e para a formação de novas mulheres.

É um ciclo que começa na habilidade, passa pela administração e retorna para a comunidade. O conhecimento se transforma em produto; o produto chega ao mercado; o negócio gera receita; e parte desse resultado ajuda a manter o espaço onde outras mulheres também aprendem a produzir e empreender.

Segundo Marilene, a transformação também mudou a forma de enxergar o próprio trabalho. O que antes era conhecimento e criatividade passou a ser conduzido com mais organização, planejamento e decisões voltadas para a continuidade do negócio.

“Então o que mudou foi a organização. Hoje me sinto realizada porque foi graças à importância da administração, de entender o que é isso e colocar em prática de forma organizada. Isso gera bons frutos, e eu sou prova viva disso”, finaliza.

Quando a administração transforma oportunidade em futuro

A trajetória mostra, em escala local, o que pode acontecer quando uma habilidade encontra organização. O que começou como conhecimento adquirido com a costura passou a gerar renda, movimentar um negócio e contribuir para manter um projeto que capacita outras mulheres.

Para Isabela Regina Fornari Muller, do Conselho Federal de Administração (CFA), esse efeito pode ultrapassar o empreendedor e alcançar outras pessoas.

“Com organização e profissionalização, aquilo que inicialmente era uma alternativa individual de renda pode se transformar em uma cadeia de oportunidades”, pontua.

Foi o que aconteceu com Marilene. A habilidade virou produto. O produto virou negócio. E o negócio passou a gerar recursos para que outras mulheres também pudessem aprender, produzir e empreender.

Nesse percurso, a administração deixa de ser apenas uma ferramenta para organizar uma atividade. Ela passa a contribuir para a permanência dos negócios, para a geração de renda e para a criação de novas oportunidades.

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