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Sou Ricardo Oliveira, psicólogo, mestre em Comunicação e especialista em Saúde Mental. Irei dialogar e refletir com vocês sobre comportamento, saúde integral e contemporaneidade. Vamos conversar sobre temas atuais que fazem parte do nosso dia a dia e promover informações para melhorar a qualidade de vida das pessoas e coletividades.

As cores do respeito

O preconceito e a desinformação contribuem para que muitas pessoas passem por depressão e ansiedade.


No dia 28 de junho se celebra o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+. Cada letra, assim como as cores do arco-íris, representa pessoas em suas identidades, sexualidades, afetividades e performances de gênero, considerando suas individualidades, especificidades e lutas por acesso a direitos, reconhecimento e respeito. A data faz jus à memória da "Revolta de Stonewall", na qual a polícia norte-americana prendeu, no dia 28 de junho de 1969, dezenove pessoas entre drag queens e drag kings que estavam presentes no bar Stonewall, localizado no bairro de Greenwich Village, na cidade de Nova York, sob a acusação de vendas de bebidas e travestismo, práticas ilegais no período. A prisão acabou motivando uma revolta e atos públicos contra o abuso de autoridade, gerando eventos em prol da comunidade LGBTQIAPN+.

A partir de então, o movimento de reivindicação se espalhou e ganhou força para a militância, surgindo assim o Dia Internacional do Orgulho. É importante ressaltar que, embora transexuais, travestis e transgêneros participassem ativamente das manifestações, os homens gays ganharam mais representatividade, o que pode ser associado ao machismo e aos efeitos do patriarcado na sociedade.

Foto: Tânia Rêgo/Agência BrasilLGBTQIA+.

Esse fato pode ser evidenciado pela “sopa de letrinhas”, que nos primórdios era grafada como GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), sendo posteriormente substituída pela sigla LGBT. Atualmente, a mais usada para referenciar a comunidade é LGBTQIAPN+, onde cada letra representa: L - lésbicas, G - gays, B - bissexuais, T - transexuais, transgêneros, travestis, Q - queer/questionando, I - intersexuais, A - assexuados, P - pansexuais, N - não-bináries, e o + para novas possibilidades. Cada letra acrescentada é resultado de luta por reconhecimento, direitos e protagonismo.

Da mesma forma, a bandeira do arco-íris atualmente ganhou novas nuances de cores, ressaltando a transgeneridade e os atravessamentos e recortes de raça. Sendo assim, todas as cores merecem respeito e permissão para sua existência dentro da perspectiva da comunidade. A máxima de que cada letra e cada cor é importante e deve ser considerada.

No que tange aos aspectos psicológicos, as pessoas LGBTQIAPN+ passam por diversos desafios ao longo da vida. Na infância, os primeiros sinais manifestados referentes à sexualidade e gênero são muitas vezes contestados em meio à culpa e falta de referências, além do bullying sofrido nos ambientes que deveriam ser de acolhimento e aceitação, como escola, família e amigos.

Já na adolescência, os ritos de passagem social são afetados e os conflitos de identidade são acentuados mediante a não identificação com padrões hegemônicos. Na fase adulta, surgem dilemas de autoestima, luta por reconhecimento social/familiar e construção de padrões de relacionamento satisfatório. No envelhecimento, as pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam, além dos desafios próprios desse período etário, uma crise de referência, já que muitos não assimilam essa etapa da vida como legítima em exercer sua sexualidade e identidade de gênero.

Em relação à saúde mental das pessoas LGBTQIAPN+, o preconceito, a desinformação e a dificuldade de acesso a direitos e serviços pela marginalização e estereótipos enraizados na sociedade contribuem para que muitas pessoas passem por quadros de depressão, ansiedade e tentativas de suicídio. Isso faz necessário uma política de acolhimento e oferta de cuidados como terapias e redes de apoio.

Vale lembrar que a homossexualidade deixou de ser considerada patologia em 1973, sendo substituído o sufixo -ismo, que denominava doenças, por um sufixo que indique identidade e condição, sendo excluída do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. A transexualidade também foi retirada do rol de transtornos, com a Organização Mundial de Saúde (OMS) determinando em 2018 que os países a retirassem da lista de doenças.

Apesar dos esforços, alguns pontos ainda incidem em prejuízos na saúde mental, como a violência e a exclusão, que acabam por vulnerabilizar essas pessoas e muitas precisam recorrer a acompanhamento mais específico. Para a Psicologia, as identidades LGBTQIAPN+ devem ser atendidas por suas questões que lhes atravessam em seus variados contextos, sendo proibidas terapias de “reversão” ou “cura”, e sim promovidas terapias que promovam a autoestima, autoimagem positiva e congruência no seu modo de “ser no mundo”, contribuindo para os direitos e dignidade da vida humana em suas mais diversas manifestações de existência.

Tocar as feridas de forma a curá-las, abraçar as dores para suportá-las, ver o arco-íris como um sinal de que a tempestade vai passar e, para celebrar o Orgulho, antes de tudo é preciso respeitar todas as cores, letras e pronomes.

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